segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Constellation (RJ)

Foto: César França

Marcio Louzada e Jullie em cena

Para quem viveu os anos dourados


“Constellation – Uma viagem musical pelos anos 50” estreou em nova montagem nesse final de 2014. Com direção de Jarbas Homem de Mello, direção musical de Beatriz De Luca e com coreografias de Vanessa Guillen, a peça apresenta 16 canções clássicas americanas da década de 50, como “Only You”, “Blue Moon” e “Stand by Me”. No elenco, estão Andréa Veiga, Jullie, Lovie Elizabeth, Cleiton Morais, Daniel Cabral, Drayson Menezzes, Franco Kuster, Marcio Louzada e Ugo Capelli. Em cartaz no Teatro Vanucci, no Shopping da Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro, essa produção está preparada para agradar aqueles que viveram os anos dourados. E pouco além deles.

Em 1953, a VARIG conseguiu a primeira concessão federal para o estabelecimento da rota aérea Rio de Janeiro – Nova Iorque. Para tanto, três aeronaves Lockheed Super Constellation G foram adquiridas. Muito luxuoso, esse avião quadrimotor havia reduzido a duração das viagens aéreas pelo mundo, dando mais confortabilidade para os passageiros. O primeiro voo oficial do Constellation para os Estados Unidos aconteceu no dia 28 de julho de 1955, com um tempo de viagem de 20h, com parada em Belém do Pará, Trindade e Tobago e na República Dominicana. Havia 54 assentos, 15 para a classe turística e todos os demais para a primeira classe. A bordo, um cozinheiro da família real russa assinava o cardápio que, pela primeira vez no Brasil, era servido por mulheres como comissárias de bordo. A passagem custava o que hoje seriam nove mil reais. Já totalmente substituídas em 1962, as aeronaves “Constellation” foram símbolo dos anos dourados no Brasil.

A primeira montagem de “Constellation – nas asas do glamour” estreou em 2002, dirigida por Eduardo Loyolla e com Patrícia Levy (Regina Lúcia), Adriana Quadros (Mãe) e Sabrina Korgut (Tia) no elenco com supervisão musical de Luiz Carlos Miéle. O sucesso foi enorme, levando o espetáculo a cumprir temporada em várias capitais do Brasil, apesar do texto de Claudio Magnavita, que serve apenas de escada para a entrada das canções. O formato de jukebox, em que uma coleção de músicas existentes antes da dramaturgia entram como parte mais importante do programa, tem seus méritos ainda que não sejam muitos.

A história se passa na casa de Regina Lúcia (Jullie), em um apartamento na Rua Barata Ribeiro em Copacabana, onde ouve-se sobre um concurso promovido pelos sabonetes Palmolive na Rádio Nacional. O prêmio é uma passagem para Nova Iorque na viagem inaugural do Super Constellation G, o luxuoso avião da Varig. A Mãe Gilda Maria (Lovie Elizabeth), uma funcionária do Ministério da Educação desquitada, e a Tia Maria da Penha (Andrea Veiga), uma vedete do Cabaré Casablanca, começam uma campanha familiar de arrecadação de rótulos do sabonete de forma que Regina Lúcia possa ter mais chances de ser premiada. Sem dificuldades, ela vence e participa da etapa final da seleção, quando deverá acertar o título de três canções interpretadas pela orquestra no Golden Room do Copacabana Palace, esse o melhor momento do espetáculo. Já anunciado pela cena de abertura, Regina Lúcia vence o concurso. O único elemento surpresa da peça surge nos momentos finais. No aeroporto, para se despedir, surge o Noivo (Marcio Louzada) que, embora fique com ciúmes da noiva estar viajando ao lado de Jorginho Guinle (Franco Kuster), consente que ela vá. Uma surpresa, porém, aguarda por ele. Essa está longe de ser uma grande curva na narrativa, mas é ver a peça para saber como ela termina.

Não há destaque nos trabalhos de interpretação, embora se reconheça o esforço positivo de Andrea Veiga (Tia) em dar mais agilidade para a trama. Lovie Elizabeth e Jullie interpretam não mais que os diálogos e que as situações dramáticas exigem, nem menos. Marcio Louzada apresenta o personagem do Noivo de forma muito apagada, valorizando o trabalho de Franco Kuster em positivo desempenho como Jorginho Guinle. Falta virilidade no elenco masculino, cujos movimentos delicados e pernas depiladas não convencem. Sem exceções, o elenco canta bem, com elogios para Drayzon Menezzes, além de Veiga e de Jullie. As coreografias de Vanessa Guillen são tão bonitas quanto as canções, contribuindo vibrantemente para o espetáculo.

A direção de arte se esforça em produzir um contexto brilhante para os anos 50, enchendo o palco de cor e afastando qualquer realismo. No visagismo de Dicko Lorenzo, todos os personagens usam perucas ou apliques no cabelo e muita maquiagem, expressando um conceito bem articulado, mas que nem sempre se sai bem. O cansativo figurino de Patrícia Muniz peca pelo excesso, tentando dar vida para uma história que não tem tanta. O excelente cenário de Natália Lana é o elemento mais bem usado na viabilização de “Constellation”, contando ainda com o ótimo desenho de iluminação de Paulo César de Medeiros e com as meritosas projeções de Thiago Stauffer, Felipe Menezes e de Aldo Haroldo.

“Constellation” é o primeiro trabalho de direção de Jarbas Homem de Mello no Rio de Janeiro e tem méritos por agradar uma fatia específica do público carioca, mas pouco além dela. O retumbante sucesso de 2002 não se repetiu.

Repertório:
Heaven on Earth (Buck Ram)
He’s Mine (Buck Ram)
My Prayer (G. Boulanger)
Blueberry Hill (Lewis / Stock / Rose)
Blue Moon (Richard Rodgers / Lorenz Hart)
When I Fall In Love (V. Young / E. Heyman)
Jambalaya (On The Bayou)
The Great Pretender (Buck Ram)
Donna (Ritchie Vallens)
Surfin’ USA (Chuck Berry / Brian Wilson)
Only You (A. Rand / Buck Ram)
Unchained Melody (A. North / H. Zareth)
Stand By Me (B. King / J. Leiber / M. Stoller)
Smoke Gets In Your Eyes ( J. Kern / O. Harbach)
Unforgettable (I. Gordon)
Happy Day

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FICHA TÉCNICA
Texto e Idelização: Cláudio Magnavita
Direção: Jarbas Homem de Mello
Direção Musical e Arranjos: Beatriz De Luca
Produção Geral: Frederico Reder
Coreógrafa e Diretora Assistente: Vanessa Guillen

Elenco: Andrea Veiga, Jullie, Lovie Elizabeth, Cleiton Morais, Daniel Cabral, Drayson Menezzes, Franco Kuster, Marcio Louzada, Ugo Capelli

Banda Constellation: Eduardo Henrique (Band Leader e Piano), André Barros (Guitarras, Violão e Banjo), Wagner Bispo (Contrabaixos Acústico e Elétrico), Edmar Germano (Bateria), Eduardo Henrique e Thalyson Rodrigues (Pianistas ensaiadores)

Comissários de Bordo/Elenco de apoio: Agatha Maria Kreisler, Douglas Teixeira, Luã Bregeron e Mariana Floriani
Cenógrafa: Natalia Lana
Figurino: Patrícia Muniz
Visagismo: Dicko Lorenzo
Desenho de Luz : Paulo César Medeiros
Desenho de Som: Fernando Fortes
Texto Off: Claudio Torres Gonzaga
Assistente de Cenografia: Marieta Spada
Assistente de Figurino: Patricia Delvaux
Assistente de Iluminação: Julio Medeiros
Assistente de Desenho de som: Leandro Lobo
Cenotecnico: Andre Salles
Criação de projeção: Thiago Stauffer | Studio Prime
Equipe Cenotécnica: Gilvan Silva, André Cruz, Walmir Júnior, Paulo Sá, Gilberto Kalkmann, Alberto Serralheiro
Direção de palco: Pedro Guedelha
Contrarregra: Fernando Queyroz
Costureira de cenário: Rosangela Lapas
Pintora de Arte: Naira Santana
Diretor de arte projeções: Felipe Menezes
Arte gráfica objetos de cena: Bárbara Lana
Agradecimentos de Cenografia: André Mizarela, Lucas Mansor, Juliana Reder
Montagem de Luz: Boy Jorge, Vilmar Olos, Leandro Meirelles, Lúcio Bragança |Art Light
Operador de Som: Andre Breda
Microfonista: Jorge Batista
Operação de Projeção: Flavia Belchior
Camareiros: Valter Rocha e Eliana Ruth

Equipe de Comunicação
Gestão de Comunicação: Mariana Reder
Comunicação e Marketing: Rodrigo Medeiros e Luana Ribeiro
Fotos e Projeto Gráfico: Milton Menezes | Lightfarm Brasil
Arte Finalista: Ana Maria Suzart
Assessoria de Imprensa: Fábio Amaral | Minas de Ideias
Assistente de Fotografia: Gabriel Stefanini
Projeto 3D: Raphael Coppola

Equipe Brainstorming
BRAINS RJ: Alessandra Reis, Bianca Silva, Beth Chagas, Fernanda Goulart, Francis Rodrigues, Gabrielle Fontes, Natalino Werneck, Inez Pimenta, Jean Frazão , Lucas Mansor, Luiza Castro, Rita Reder.

BRAINS SP: Andrea Prado, Anna Soares, Beto Marden, Daiane Carvalho, Felipe De Lima,Gherardo Franco, Ilana Pedreira, Maíra Freitas , Marcelo Dabanian , Marcos Paulo De Andrade , Pedro Caramori, Rodrigo Trabblod, Rosangela Capelari, Stephanie Baccain, Wellington Oliveira

Equipe de Produção
Direção de Produção Executiva: Alina Lyra
Produtora Assistente: Marcelle Nery
Produção de Cia: Luana Simões
Assistente de Produção: Izadora Schetter
Elaboração de Projeto: Elisa d'Abreu e Natália Simonete
Administração Financeira: Juliana Reder
Produção Executiva: Alkaparra Produções
Realização: Brainstorming Entretenimento

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Couve-flor (RJ)

Foto: divulgação

Da esquerda pra direita, Clarisse Zarvos, Nathália Lima Verde (de costas),
 Marília Nunes, Bel Flaksman (de costas), Sarah Lessa e Patrick Sampaio

Espetáculo promove reflexão sobre o conceito de família nos dias de hoje



“Couve-flor” tem o mérito de propor uma reflexão valiosa sobre o conceito de família nos dias de hoje. Com texto escrito em parceria entre Rosyane Trotta e os coletivos Miúda e Brecha, a peça tem Bel Flaksman, Clarisse Zarvos, Marília Nunes, Nathália Lima Verde, Sarah Lessa e Patrick Sampaio no elenco em meritosa encenação dirigida por Caio Riscado. Depois de ter cumprido uma bela temporada no Teatro Sérgio Porto, o espetáculo segue para outra na Sede das Companhias, na Lapa, zona central do Rio de Janeiro.

A história de “Couve-flor” começa quando Tobias (Patrick Sampaio) encontra Nina, uma antiga conhecida, que lhe convida para ficar em sua casa por uns tempos. Nina (Marília Nunes) divide a moradia com mais quatro mulheres – Luciana (Bel Flaksman), Malu (Clarisse Zarvos), Dora (Nathália Lima Verde) e Gab (Sarah Lessa) – e o grupo reage de diferentes formas ao novo morador. Tendo já iniciado uma pesquisa teórica sobre a definição de família na contemporaneidade, esse mergulho de Tobias na casa de Nina e de suas amigas poderá dar novos contornos ao seu trabalho acadêmico. Assim, ao longo da história, o pesquisador há de se interrogar sobre qual poderia ser o elemento catalisador dessa estrutura familiar que ele observa: Luciana, que é a dona da casa? Gab, que, sendo transexual, pode ser a figura masculina? Ou Malu e Dora, que são um casal? O problema da dramaturgia de “Couve-flor” é que a pergunta sobre o que faz dessa família ser família é unicamente uma questão intelectual do trabalho de Tobias cuja resposta não modifica nem sua vida, tampouco as das demais personagens. Negativamente, o grande conflito é apenas uma pergunta de pesquisa mal feita. 

Por outro lado, a família criada entre as cinco mulheres é, por si só, um objeto interessante para o desenvolvimento da narrativa. A liberdade até então cultivada pelas moradoras sofre abalos com a necessidade sentida por uma delas de um pouco mais de regras na casa, mas é relevantemente alterada pela chegada do sexto personagem. Há ainda a relação delas com os pais de Luciana e com os vizinhos que observam criticamente suas festas íntimas. Por ser uma transexual que mora com outras quatro mulheres, Gab/Gabriel é universo dramático a parte ao lado do processo de formação de um casal entre o grupo e as novas relações de convivência. Nesse sentido, o laço de amizade cujos diferentes níveis unem essas pessoas se apresenta como uma força muito mais atraente do que as monótonas reflexões teóricas que o personagem Tobias protagoniza. Nesses trechos, ao invés de investir na discussão do tema, a peça infelizmente parece querer discuti-lo sozinha.

A direção de Caio Riscado, assistido por Mayara Yamada e por Gunnar Borges, faz os intérpretes, os objetos cenográficos e os demais elementos cênico-narrativos preencherem o palco em igual medida, representando bem a atmosfera de ecossistema. A cena de abertura, em que há um giro de 360 graus no quadro de observação, é um exemplo do conceito que pode estar por trás da obra “Couve-flor”: uma questão tem sempre muitos lados e, na contemporaneidade, já não há mais espaço para um ponto de vista unilateral. No encadeamento das cenas, essa noção se aprofunda brilhantemente. Estendem-se aqui os elogios à direção de movimento de Luar Maria.

Livros, plantas, objetos de design, na elogiosa direção de arte de Natália Araujo, fazem referência à complexidade do ser humano que não se encaixa em padrões ainda que possa reproduzir modelos, mas esses não integralmente. A peça tem ainda participação marcante do desenho de iluminação de Marcela Andrade e de Pedro Struchiner além da direção musical de Rafael Lorga.

Quanto às interpretações, não há um grande trabalho individual, mas deve-se destacar positivamente a unidade do grupo. O elenco, cujas interpretações fogem do teatral e se aproximam de um real além da narrativa, tem seus melhores momentos na cena em que discutem o futuro do coletivo após a formação do casal Malu e Dora.

Entre todos os méritos de “Couve-flor”, certamente está o esforço em lembrar que família, principalmente no mundo de hoje, é uma questão de afeto. Vale a pena ser visto!


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FICHA TÉCNICA
Texto: Rosyane Trotta e coletivos Miúda e Brecha
Elenco: Bel Flaksman, Clarisse Zarvos, Marília Nunes, Nathália LimaVerde, Patrick Sampaio e Sarah Lessa
Direção geral e idealização de projeto: Caio Riscado
Direção de movimento e preparação corporal: Luar Maria
Direção de vídeo: Lucas Canavarro
Direção, produção musical e trilha sonora original: Rafael Lorga
Direção de arte, cenário e figurino: Nathália Araújo
Iluminação: Marcela Andrade e Pedro Struchiner
Design gráfico: Raul Taborda
Produção: Lia Sarno
Assistência de produção: Bel Flaksman
Assistência de direção, pesquisa e projeto: Mayara Yamada
Assistência de direção: Gunnar Borges
Stand-in: Mayara Yamada e Natália Araújo
Operador de luz: Marcela Andrade / Luar Maria / Gunnar Borges
Operador de som: Rafael Lorga / Caio Riscado / Mayara Yamada
Canção original: Pra fazer amor (Rafael Lorga e Clarice Lissovsky)
Referências textuais - citação: Ana Martins Marques ("Falésias") / paráfrases: Leonarda Gluck, Philippe Baptiste, Ivana Bentes e Lucas Lolli Savi.
Gravação e Mixagem: Estúdio DoisporDois
Realização: Miúda, Brecha e Rosyane Trotta

sábado, 20 de dezembro de 2014

Gertrude Stein, Alice Toklas e Pablo Picasso (RJ)

Foto: divulgação
Bárbara Bruno em cena


Sobre a "Geração Perdida"

Em cartaz no Teatro do Leblon, a peça “Gertrude Stein, Alice Toklas e Pablo Picasso” tem o mérito de oferecer, nos dias de hoje, um espaço riquíssimo para a reflexão sobre o papel da vanguarda na construção do pensamento modernista. Escrita por Alcides Nogueira, a peça se passa na primeira metade do século XX quando vários artistas se encontravam na casa da escritora americana Gertrude Stein (1874-1946) em Paris. Ernest Hemingway, Henri Matisse, Thornton Wilder, Jean Cocteau, F. Scott Fitzgerald e Pablo Picasso, entre outros, formavam a chamada Geração Perdida. O texto, no entanto, sugere uma aproximação entre a contemporaneidade e aquele período, exibindo a vitalidade daqueles encontros cheios de liberdade. Interpretado por Giuseppe Oristânio, por Sabrina Faerstein e por Bárbara Bruno, essa última dividindo a direção com Paulo Goulart Filho, o espetáculo merece ainda mais atenção pelo modo como se apresenta. Sem os tradicionais pontos de mudança, clímax e sem conflito narrativo em sua dramaturgia, a peça é ainda sim cheia de força estética.

Em 1996, Alcides Nogueira deu novas cores ao texto “Retrato de Gertrude Stein quando homem”, que havia sido escrito quatro anos antes e encenado pelo Grupo Fodidos Privilegiados, com direção e atuação de Antônio Abujamra, e com Vera Holtz e Suzana Faini no elenco, oferecendo à atriz Nicette Bruno, que então completava 50 anos de carreira dividindo o palco com Clarisse Abujamra e com Francarlo Reis. Dezoito anos depois, a nova montagem com direção de Paulo Goulart Filho e de Bárbara Bruno chega ao Rio de Janeiro em que se apresenta pela primeira vez. Coberto de quebras de referências, definindo o código como a sua recorrente negação, o  espetáculo se estrutura, por exemplo, justapondo figurinos que remetem aos anos 20 com um notebook, ou citações ao contexto histórico europeu do início do século XX com imagens da atualidade da política brasileira. A liberdade aparece em todos os cantos através de frases longas, digressões de pensamento e de retomadas de repertório da cultura ocidental. O resultado é a atenção constante do espectador que se mantém cativo, não apenas acompanhando os últimos anos da vida de Gertrude Stein, de sua esposa Alice B. Toklas e do amigo do casal Pablo Picasso, mas experimentando um certo tipo de festa com muita filosofia e excepcional criatividade. O melhor do texto de Nogueira é a inteligência dos diálogos nos quais a fluência ultrapassa a complexidade brilhantemente.

Bárbara Bruno (Gertrude), Sabrina Faerstein (Alice) e Giuseppe Oristânio (Picasso) apresentam um qualificado trabalho de interpretação que dribla bem a ausência de ação do texto. Os poucos movimentos pelo palco assumem a proposta de muito mais sugerir uma reflexão e bem menos de contar uma história. Os personagens são apresentados, assim, pela força da relação que estabelecem uns com os outros e não tanto por suas características próprias. Nesse sentido, a direção dos irmãos Bárbara Bruno e Paulo Goulart Filho se afasta positivamente de qualquer caricatura que pudesse superficializar Gertrude, Alice e Picasso, avançando por aspectos mais sutis de seus contornos. Estão lá o amor incondicional de Gertrude por Alice, mas também a autocrítica da primeira sobre seu próprio trabalho, as limitações culturais da segunda que não a impediam de contribuir para a obra da outra e a determinação de ambas em permanecer juntas por quase quarenta anos. Em contraponto, Picasso tem seu lado humano valorizado no âmbito de suas frustrações pessoais em relação à sua Espanha idealizada. Deste modo, a sensibilidade dos intérpretes na viabilização de suas figuras merece ser valorizada nessa produção, como também os delicados cenário e figurino de Maria Bonomi. No mesmo sentido, o desenho de luz de Daniela Sanchez e a trilha sonora original de André Abujamra.

“Gertrude Stein, Alice Toklas e Pablo Picasso” explora a não linearidade, a esparsa cronologia e o amplo uso de figuras de linguagem para dar a ver um mundo em que as regras eram quebradas pela necessidade de valorizar mais as perguntas do que as repostas. Os questionamentos ainda são essenciais. Viva a liberdade!


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Ficha técnica:
Autor: Alcides Nogueira
Direção: Bárbara Bruno e Paulo Goulart Filho
Cenário e Figurino: Maria Bonomi
Trilha Originalmente Composta: André Abujamra
Luz: Daniela Sanchez
Elenco: Bárbara Bruno, Sabrina Faerstein e Giuseppe Oristânio