sábado, 11 de outubro de 2014

Chuva Constante (RJ)

Foto: divulgação
Augusto Zacchi e Malvino Salvador em cena


Grata surpresa na programação de teatro carioca

“Chuva constante – A felicidade é fora da lei” é uma gratíssima surpresa na programação de teatro do Rio de Janeiro. Com cara de filme B, cheio de armas, mortes e de testosterona, a peça apresenta personagens e uma história muito mais profunda com o passar da narrativa. Com Malvino Salvador em ótima performance e Augusto Zacchi no elenco, eis aqui um dos melhores trabalhos de direção de Paulo de Moraes dos últimos tempos. A peça está em cartaz no Teatro Leblon.

A peça “A Steady Rain”, do americano Keith Huff (autor de “House of Cards”), estreou em 2007, na Broadway, com Daniel Craig e Hugh Jackman no elenco. Depois de largo sucesso, está para virar filme pelas mãos de Steven Spielberg. Em cena, dois policiais narram a própria história. Para salvar o amigo da bebida, Denny (Malvino Salvador) passa a levar o amigo de infância e colega Joey (Augusto Zacchi) para jantar todas as noites com sua esposa e filhos. Um dia, um tiro atinge a vidraça e um dos filhos de Denny é gravemente ferido pelos cacos de vidro. Embora pareça, no entanto, o fato não é o início de uma perseguição, mas apenas um dos seus pontos altos. Por trás do atentado, o público vai descobrindo a forma como ambos os policiais estão especialmente ligados à prostituição de Chicago e aos desafios da execução de suas funções enquanto funcionários interessados em suas próprias promoções. E mais: aos poucos, os contornos de caráter de Joey e de Denny revelam a complexidade dos dois personagens, a visão de mundo que cada um tem, seus sonhos e suas frustrações e principalmente as relações de lealdade, de fidelidade e de amizade que há entre eles. Enquanto estrutura, a dramaturgia tem ainda méritos na forma como dispõe os fatos da narrativa, sempre e em cada cena, permitindo ver pontos que modificam a visão por sobre a história, no que a tradução de Danielle Avila Small se mostra amplamente elogiável.

A direção de Paulo de Moraes situa Malvino Salvador e Augusto Zacchi em posições firmes que são contrárias aos movimentos das cenas narradas. O efeito gera positivamente uma tensão que expulsa a ação dramática do palco e a obriga acontecer na plateia, no seio do público. Assiste-se à “Chuva constante” com o coração na boca, ávido por saber como a história termina, como tudo começou, o que acontecerá depois. O espetáculo estreia com excelente ritmo, impondo o seu tempo particular, delimitando seus níveis de tensão, mantendo em suspenso a crítica à sociedade violenta da zona urbana.

Salvador e Zacchi são fortes em cena em interpretações que não recusam as características das imagens públicas de seus atores, mas que tiram proveito delas positivamente. Para além disso, o jogo de concentrar e de expressar a tensão, a variedade dos tons, o excelente uso dos movimentos reduzidos, do olhar e dos gestos e a forma clara de dizer o texto chamam a atenção no trabalho de Malvino Salvador. Quanto a Zacchi, o personagem Joey, mais racional e ardiloso que Denny, se dá a ver a partir de uma interpretação menos emocionada e mais fria coerentemente.

“Chuva constante” se conta em um palco cujas laterais estão repletas de refletores que constroem uma atmosfera de depoimento, de confissão, de desnudamento. De fato, em nenhum momento, se sabe ao certo qual é o lugar de onde essa história se conta, se do presente, do passado ou se do futuro, mas se sabe que os personagens são almas que precisam expor o seu ponto de vista sobre os fatos para, só assim, continuar. Parabéns!

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FICHA TÉCNICA
Texto: Keith Huff
Tradução: Daniele Avila Small
Direção: Paulo de Moraes
Elenco: Malvino Salvador e Augusto Zacchi
Direção de Produção: Cinthya Graber e José Carlos Furtado Filho
Cenário e Figurino: Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha sonora: Ricco Viana
Projeto gráfico: Radiográfico
Relações Públicas/ Convidados: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Assessoria de imprensa: Liège Monteiro e Luiz Fernando Coutinho
Uma produção: Cinthya Graber, Luis Erlanger e Malvino Salvador

A Estufa (RJ)

Foto: divulgação
Marcelo Aquino, Mario Borges, Isio Ghelman e Pedro Neschling
em cena


O novo Pinter dirigido por Ary Coslov

“A Estufa”, do britânico Harold Pinter (1930-2008), tem um tom absurdo que esconde um retrato mais fiel da realidade do que aparentemente se vê a princípio. O resultado é a construção de uma metáfora complexa para o mundo em que as relações se dão a partir de uma série de não-ditos a embasar conversações fluentes muito próximas do real. Dirigido por Ary Coslov, mesma assinatura da premiada montagem de “Traição”, de 2008, também de Pinter, o espetáculo está em cartaz no Teatro da Casa de Cultura Laura Alvim com Isio Ghelman, Paula Burlamaqui, Mario Borges, Pedro Neschling, Marcelo Aquino e com Thiago Justino no elenco.

Escrito em 1958, o texto situa uma história que acontece em uma espécie de casa de recuperação em uma noite de natal. Está nevando lá fora, mas, com o passar das horas, o calor dentro da sala do diretor, o Sr. Roote, parece aumentar. Chamados por números que se confundem facilmente, os “pacientes” (ou internos? Ou prisioneiros?) são os assuntos do dia. Um deles deu à luz a um filho e outro foi encontrado morto. As consequências burocráticas de ambos acontecimentos recentes parecem, no entanto, serem maiores do que os próprios fatos. Em “A Estufa” ("The Hothouse"), o enredamento das cenas não possibilita zonas de conforto para o público, mas, ao contrário, parte de um entendimento de que as palavras, essas muito perigosas, podem ser mais importantes que aquilo que elas expressam. Nesse sentido, a dramaturgia possibilita uma crítica forte à complexa estrutura burocrática principalmente dos regimes socialistas.

Na montagem dirigida por Coslov, os melhores momentos da encenação são os protagonizados por Mario Borges (Sr. Roote), Isio Ghelman (Gibbs) e por Marcelo Aquino (Lush). Talvez mais privilegiados pelo próprio texto, esses três personagens têm seus conflitos mais claros. De um lado, o diretor se sente responsável pela continuidade da rotina implantada há muitos anos, antes de sua admissão ao cargo agora ocupado por seus subalternos. Por outro, o Sr. Roote se vê ameaçado pelo poder tomado por seus funcionários, pela possível perda do controle da situação. Em outro nível, hierarquicamente em posições diferentes, Gibbs (Ghelman) e Lush (Aquino) estabelecem um tipo velado de duelo que os caracterizam como inimigos em disputa pelo poder. Considerando a chegada do natal, o aumento da temperatura e os acontecimentos recentes, a narrativa vai construindo uma estrutura um tanto claustrofóbica que, com méritos à direção, se mostra cômica em alguns momentos. Borges, Ghelman e Aquino, por criarem de forma bastante clara seus pontos de aproximação e de distância uns dos outros, são aqueles que têm maiores méritos na viabilização desse texto difícil.

Assinado pelo diretor, o cenário de “A Estufa” permite que vejamos as paredes do palco do teatro e suas engrenagens. Sobre isso, o desenho de luz de Aurélio de Simoni, de forma interessante, produz diversos níveis de maneira que é possível vislumbrar, a partir da sala do Sr. Roote, o que acontece nos outros ambientes do prédio em que a narração acontece. Localizada nos anos 50, a história se expressa a partir dos figurinos de Biza Vianna que auxiliam na construção de um ambiente elegante na mesma medida que ficcionalmente corrompido.

Nada é claro para o espectador de “A Estufa”, nem as regras por trás das relações entre os funcionários, nem os meandros de cada fato acontecido, tampouco exatamente os interesses de cada um. Em um meio do caminho entre o cômico, o tragicômico e o absurdo, a peça sugere uma crítica e um posicionamento político mais do que propriamente os propõe. Nem de longe, esse é um dos melhores textos de Pinter, mas seu autor vale a atenção sem dúvida. 

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Ficha Técnica:
Direção e Cenário: Ary Coslov
Figurinos: Biza Vianna
Iluminação: Aurélio de Simoni
Trilha Sonora: Ary Coslov
Tradução: Isio Ghelman
Direção de Produção: Celso Lemos

Elenco:
Isio Ghelman
Mario Borges
Paula Burlamaqui
Pedro Neschling
Marcelo Aquino
Thiago Justino

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Beije minha lápide (RJ)


Paulo Verlings e Marco Nanini no cenário de Daniela Thomas
Foto: divulgação

Oscar Wilde, Marco Nanini e Jô Bilac: excelente teatro político contemporâneo


            Um dos melhores espetáculos produzidos em 2014, “Beije minha lápide” é o novo texto de Jô Bilac, dirigido por Bel Garcia e protagonizado por Marco Nanini. Finalizando temporada nos Correios, a peça vai seguir carreira no Teatro Dulcina, na Cinelândia, ainda no Rio de Janeiro. No elenco, Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings integram o elenco, todo ele de já esperados excelentes trabalhos de interpretação. O cenário de Daniela Thomas é também um dos pontos altos do espetáculo, cuja dramaturgia se mistura com excertos de Oscar Wilde. Pelos objetivos nobres, pelos desafios vencidos e pela excelência do resultado, eis aqui uma peça que exibe mais uma vez o já admirado talento de seus realizadores.

            A história da peça parte de um fato real. Há uma tradição entre os admiradores do escritor irlandês Oscar Wilde (1854-1900) que é a de beijar seu túmulo, deixando impressa uma marca de batom. Levando em conta que sua tumba é, desde 1914, uma obra de arte de Jacob Espstein, a administração do cemitério Père Lachaise, em Paris, achou por bem proteger a lápide com uma barra de vidro em 2011. Na dramaturgia, Sebastian (Marco Nanini) é um escritor contemporâneo famoso que, em um momento de descontrole (?), arrancou a proteção imposta e, assim, pode beijar a lápide de Wilde, mantendo firme a tradição. Na primeira cena, Sebastian está preso e sua advogada Roberta (Carolina Pismel) tenta estabelecer um diálogo com o cliente, buscando bases para a construção da defesa. Na sequência, o espectador conhecerá também Tommy (Paulo Verlings), o carcereiro; e Ingrid, a guia que conduz os visitantes nos passeios ao cemitério de Paris.

            O primeiro ponto relevante do texto de Jô Bilac está na requisição de um espectador ativo durante o processo de fruição da peça. O modo como as informações estão dispostas requer reflexão constante. Dentre as forças que estruturam a história de “Beije minha lápide”, há o debate entre o que é legal juridicamente versus a fidelidade aos princípios. Já na abertura da peça, assim, está a oposição entre o espírito irrequieto de Sebastian e a visão metódica de Roberta. Em liberdade, a advogada goza de certo prestígio na profissão e é aparentemente feliz em seu noivado com um médico otorrinolaringologista. O movimento de discussão sobre qual tipo de proteção real a tampa de vidro oferece vai, dessa forma, se espalhando, durante a narrativa, nas reflexões sobre outros elementos: o que está por trás de Roberta? De Ingrid? De Tommy?

            Outra questão interessante ainda nesse quesito é o ineditismo da obra. Ao longo do texto, várias frases de Wilde são citadas, principalmente aquelas ditas pelo personagem de Nanini, de maneira que é notório que estamos diante de uma obra com clara referência ao irlandês. No entanto, nem “Beije minha lápide” é uma história escrita por Wilde, nem o escritor aparece em cena personificado. Uma carta que Sebastian escreve na prisão para sua filha, em uma referência a “De profundis”, livro escrito por Wilde na cadeia, também ganhará importância ao longo da narrativa.

            A encenação de Bel Garcia, co-diretora de “Conselho de classe”, outro espetáculo premiado de Jô Bilac, oferece mais uma questão bastante interessante. Ao situar Sebastian dentro de uma caixa de vidro, a peça se abre como uma metáfora riquíssima. A prisão do escritor protagonista tem visível relação com a tampa de vidro do túmulo de Wilde que, por sua vez, tem proximidade com a condenação do irlandês. Por outro lado, outro mérito da direção, a interpretação de Nanini para o personagem Sebastian expressa uma segurança que tem nítida oposição com a dos demais, tensas quanto ao alcance de seus objetivos.

            Em trabalhos menores, Júlia Marini (Ingrid) e Paulo Verlings (Tommy) expressam bastante sutilmente algumas variações que dão o tom de seus personagens. Considerando os muitos níveis semânticos dessa narrativa, o efeito é revelador. Em uma interpretação confortável, Carolina Pismel evidencia semelhança desta com outras personagens suas: as falas cortantes, o tom pontual, os movimentos retos, tudo isso apropriado para sua advogada Roberta. Marco Nanini, com movimentos reduzidos e entonações próximas do real além da narrativa, dá a ver um Sebastian carismático apesar de sua ironia, afetação e rabugice.

            Aparentemente simples, o cenário de Daniela Thomas, com vídeos de Julio Parente e de Raquel André, é uma estrutura bastante complexa tanto tecnicamente como da ordem da construção do sentido. No vidro, são projetadas imagens florais que expressam o bucolismo de um cemitério visitado por turistas, o que expressa um certo tipo de alienação cultural. Além disso, a obra oferece à audiência um vibrante jogo de reflexos, a partir do qual é possível ver cenas em que os personagens são vistos duplamente, de frente e de costas, ou diante de si próprios, em uma bonita (e latente) relação com a frase “eu tenho amigos para saber como eu sou.” São discretos, mas pontuais os figurinos de Antônio Guedes, as participações da trilha sonora de Rafael Rocha e o desenho de luz de Beto Bruel.

            “Beije minha lápide”, como “Conselho de classe” e como “Mamutes”, é uma peça política, mas não ideológica. Ao sair do teatro, o espectador terá sido gentilmente levado ao questionamento sobre diversos pontos, entre eles, a posição do estado em agir arbitrariamente sobre aquilo que não conhece. Aplausos sonoros!

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Ficha técnica
Texto:Jô Bilac 
Direção: Bel Garcia 
Elenco: Marco Nanini, Carolina Pismel, Júlia Marini e Paulo Verlings 
Produzido por: Fernando Libonati 
Idealização: Marco Nanini e Felipe Hirsch 
Figurino: Antônio Guedes 
Iluminação: Beto Bruel 
Cenografia: Daniela Thomas 
Concepção e direção de vídeo: Julio Parente e Raquel André 
Videografismo: JúlioParente 
Trilha sonora: Rafael Rocha 
Design gráfico: Felipe Braga 
Fotografia: Cabéra 
Visagismo: Ricardo Moreno 
Visagismo Marco Nanini: Graça Torres 
Assistente de direção: Raquel André 
Equipe de Produção 
Coordenação e gestão de projetos: Carolina Tavares 
Direção de produção: Leila Maria Moreno 
Produção executiva: Monna Carneiro 
Assistente de produção: Gutemberg Rocha e Glauco Lopes 
Realização: Pequena Central