terça-feira, 26 de agosto de 2014

Jazz do Coração (RJ)

Françoise Forton e Aline Peixoto em peça com poemas de Ana Cristina César
Foto: Guga Melgar

Uma peça tocante!


            “Jazz do Coração” traz a poesia de Ana Cristina César à pauta do teatro carioca com a sensibilidade, com a força e com a juventude que o texto merece. Com Françoise Forton e Aline Peixoto em interpretações bastante sensíveis, a peça tem direção delicada de Delson Antunes e belíssima trilha sonora original composta por Pedro Luis. O maior mérito é sua estrutura. Conhecedores da poetisa carioca, falecida há trinta e um anos, mas também aqueles que nunca ouviram falar de seu trabalho tem, nessa narrativa lírica, meios de entrar no texto, sentir seu sabor e de se emocionar. A peça está em cartaz na Sala Rogério Cardoso, na Casa de Cultura Laura Alvim, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro.

            Um hit. A peça, que não é biográfica, faz apagadas referências à Ana Cristina César (1952-1983) a ponto de felizmente mais apresentarem uma personagem do que propriamente uma figura notória. O resultado é que a dramaturgia de “Jazz do Coração”, assinada por Delson Antunes, positivamente consegue atingir o público de todas as idades, mas também aqueles com diferentes repertórios culturais. Em cena, vemos duas personagens femininas de idades diferentes, dividindo a verbalização de imagens que refletem o medo e a excitação pelo desconhecido, a ansiedade por fazer algo grandioso versus o prazer das coisas simples, da solidão, do mundo interior. A direção de Delson Antunes dá a ver quadros complexos e de grande beleza, com símbolos que são ricos na articulação das cores, das formas, dos sentidos. A máquina de escrever, o mimeográfo, as malas, a estante, o metrônomo, o telefone de disco expressam não apenas um mundo anterior à internet, mas também um universo em que as individualidades eram tão valorizadas quanto os encontros reais.

            Françoise Forton e Aline Peixoto deslizam pelo palco com suavidade. Não são parecidas, têm idades diversas, compartilham de grande beleza e de alto carisma. Essas qualidades favorecem a viabilização de uma narrativa que se estrutura de forma não-linear, pois o personagem de uma não é o passado da outra. Ambas estão juntas atravessando o mesmo tempo complexo, enfrentando os desafios da vida que se torna adulta. As palavras soam leves e claras, a proximidade com o público vira conceitual na medida em que é favorecida pela movimentação delicada e pelos gestos sutis. No elenco, tudo é convite para uma aproximação, quadro esse que positivamente se opõe à vida distanciada e virtual da contemporaneidade.

            A produção tem como um de seus grandes destaques a trilha sonora. Com sete poemas musicados por Pedro Luis, a com direção musical e preparação vocal de Suely Mesquita, as canções inéditas são cantadas ao vivo pelas atrizes. O todo é muito sensível e delicado. Além disso, o espetáculo evidencia um tratamento sonoro de grande valor. O barulho da datilografia, o ponteiro do metrônomo girando, o giro do disco do telefone. Todos os barulhos pontuam não apenas um não-silêncio, mas participam efetivamente do quadro estético. O cenário assinado por Jeane Terra e a luz por Luiz Paulo Neném, ao lado dos figurinos de Carol Lobato, definem uma estrutura potente que é coerente com as intenções, mas também com o sucesso das realizações.

            É comum associarem a poetisa Ana C. com a romancista Clarice Lispector (1920-1977) e com o contista Caio Fernando Abreu (1948-1996) por esses serem também escritores voltados para dentro, autores de uma literatura mais intimista. Idealizado por Françoise Forton e por Delson Antunes, “Jazz do Coração” é uma peça uma que fala baixinho, uma espécie de sussurro que, assim como afasta o silêncio, o valoriza ainda mais. Um espetáculo tocante!
 
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FICHA TÉCNICA
Da obra de Ana Cristina Cesar
Dramaturgia e direção: Delson Antunes
Elenco: Françoise Forton e Aline Peixoto
Músicas: Pedro Luís
Direção musical e preparação vocal: Suely Mesquita
Cenário: Jeane Terra
Figurinos: Carol Lobato
Iluminação: Luis Paulo Nenén
Direção de movimento: Adriana Bonfatti
Assistente de direção: Marcéu Pierroti
Programação visual: LSD Design
Direção de produção: Elaine Moreira
Produção executiva: Rodrigo Becker
Assistente de produção: Jeferson Neto
Produção e assessoria de imprensa: Barata Comunicação

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Salomé (RJ)


Eliane Coelho e Lício Bruno em cena no Theatro Municipal

Foto: Leonardo Pergaminho



A brava Eliane Coelho

                “Salomé”, a nova produção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, marca os 150 anos do nascimento do alemão Richard Strauss (1864-1949). Montagem assinada por André Heller-Lopes, com regência de Silvio Viegas, a peça conta com a soprana Eliane Coelho (Salomé), o baixo-barítono Lício Bruno (João Batista), o tenor irlandês Paul McNamara (Herodes) e com a mezzo-soprana Carolina Faria (Herodias) nos papeis principais. O libreto, da poetisa Hedwig Lachman, é baseado na peça homônima de Oscar Wilde. Lançada em 1905 com muito sucesso, essa ópera é referencial por vários aspectos, muitos deles positivamente encontrados na produção em cartaz na Cinelândia.

                Três semanas depois de “Salomé” estrear em Dresden, na Alemanha, Viena apresentou ao mundo a opereta “A viúva alegre”, de Franz Lehár. O mês de dezembro daquele ano, assim, simbolizava um período marcante na história do teatro musical. De um lado, Strauss, um jovem de 39 anos, cujo pai havia falecido há poucos meses, ainda representava o erudito romantismo tardio, descendente de outro alemão, Richard Wagner. De outro, uma história popular ganhava notoriedade, pautas, dinheiro e fama.  Recuperando personagens bíblicos em uma situação narrativa que atingia o seio da burguesia, Strauss, ao lado de Wilde, valorizava a aristocracia, o classicismo e a erudição, levando a música, através da troca de séculos, para além dos moralismos e dos sentimentalismos melodramáticos. Morto em 1900, o irlandês Oscar Wilde escreveu “Salomé” em francês em 1891. A peça, censurada em vários países, incluindo a Inglaterra, era o seu ponto de vista sobre o que levou Salomé a pedir a cabeça de João Batista na corte da Galileia (ver Mt 14,1-11). Dez meses antes, João Batista havia sido preso por Herodes Antipas, líder da Galileia, porque, entre outras coisas, acusava o teatrarca de traição. Herodias, sobrinha e esposa de Filipe, havia abandonado o marido para viver com seu cunhado (e tio) Herodes, levando consigo sua filha Salomé. Superticioso, Herodes não queria matar o João Batista (primo de Jesus, que ainda não era conhecido), mas, embevecido pela beleza da enteada, jurou fazer qualquer coisa que ela pedisse se dançasse para ele. Na cena mais famosa da ópera, Salomé faz a sensual “Dança dos Sete Véus” e exige a cabeça do prisioneiro em uma bandeja de prata. Nas cenas iniciais, a personagem-título havia convencido um soldado (amante seu) de soltar o prisioneiro para que ela o visse. João Batista, nesse momento, havia ofendido seus brios, não permitindo que ela o tocasse e nem mesmo pousando sobre ela o olhar. Wilde e Strauss terminam a narrativa com a imagem macabra de Salomé beijando os lábios cadavéricos da cabeça decepada do condenado, dizendo que é mais difícil resolver o amor do que a morte. Em um ato só, contada em um só fôlego, a história une a tragédia e o romantismo naquilo que outro alemão, Hegel, definiu como o fim, o êxtase, da arte.

                No palco do Theatro Municipal, belos cantores e belos músicos narram a história em cem minutos com nenhum corte nas partituras. Lício Bruno e Paul MacNamara têm participações brilhantes, mas positivamente é a brava Eliane Coelho quem se destaca. A música difícil, que une leitmotives (motivos musicais que caracterizam um personagem ou uma situação) e experiências atonais, é bem interpretada na profusão de baixos e agudos que estruturam a narrativa, a cena e a musicalidade em bom ritmo para o gênero e para a época da composição. A direção do premiado André Heller-Lopes deixa ver equilibrado balanço das informações na encenação, equilibrando o ritmo e o sustentando em positiva curva crescente. É verdade que, na montagem atual, a “Dança dos Sete Véus”, cuja coreografia não se expressa firmemente, carece de força, complexidade e de sensibilidade, mas não se pode esquecer que Strauss escreveu um epílogo longuíssimo (após o ápice e depois do fim) de vinte minutos, em que se escuta o lamento final de Salomé, defendido com galhardia pela meritosa equipe.

                Heller-Lopes também assina o cenário. O chão espelhado produz, com reflexos do belíssimo desenho de luz de Fábio Retti, mas principalmente com a ostensiva presença de luminárias art nouveau, várias sombras nas longas cortinas transparentes e também no teto do Theatro Municipal. O efeito, plenamente relacionável com o sopro das asas da morte, ajuda a construir o clima clássico e ao mesmo tempo soturno que a história apresenta. A pedraria, a forte presença de cores, os tecidos com brilho enegrecido nos figurinos de Marcelo Marques também auxiliam na viabilização dos mesmos quadros. A composição de ternos e de óculos contemporâneos com lungis pretos, misturados com as cadeiras Luis XV douradas, evoluem para os figurinos mais vistosos de Herodes e principalmente para o belíssimo vestido de Herodias, no auge do art nouveau da estética da produção. Esse pastiche estético reproduz bem a troca do século XIX para XX, fazendo a sua crítica.

                “Salomé” teve a sua primeira apresentação no Brasil em 1910 nesse mesmo Theatro Municipal. “A viúva alegre” ainda demoraria 36 anos para chegar ao mesmo palco. Vale a pena fazer essa viagem no tempo e assistir a essa produção primorosa, levando ao cabo essas e outras reflexões possíveis e grande deleite.

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Ficha técnica:
Música: Richard Strauss
Libreto: Hedwig Lachmann
Direção cênica e cenografia: André Heller-Lopes
Assistentes de direção: Menelick de Carvalho e Caetano Pimentel
Iluminação: Fabio Retti
Figurinos: Marcelo Marques
Regência: Silvio Viegas

No elenco:
Salomé: Eliane Coelho (solista especialmente convidada), soprano
              (dias 23 e 29)
              Cristina Baggio, soprano
              (dias 22, 24 e 27)
Jochanaan (João Batista): Licio Bruno, baixo-barítono
Herodes: Paul McNamara, tenor
Herodiades: Carolina Faria, mezzo-soprano
Narraboth: Ivan Jorgensen, tenor
Pajem – Lara Cavalcanti
Primeiro Judeu – Ossiandro Brito 
Segundo Judeu – Geraldo Mathias
Terceiro Judeu – Weber Duarte
Quarto Judeu – Geilson Santos
Quinto Judeu e Capadócio – Patrick Oliveira
Primeiro Nazareno e Escravo – Luiz Furiati
Segundo Nazareno e Segundo Soldado – Homero Velho
Primeiro Soldado – Murilo Neves

Trágica.3 (RJ)


Denise Del Velcchio interpreta Medeia

Foto: divulgação

A vitalidade da tragédia grega

“Trágica.3” está em cartaz no Teatro 1 do Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, com Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa e com Denise Del Vecchio interpretando Antígona, Electra e Medeia respectivamente. Dirigida por Guilherme Leme, a peça justapõe quadros das três personagens trágicas, resumindo as histórias mais conhecidas de cada uma e recriando seus universos com a vitalidade que a tragédia grega merece. Os três trabalhos de interpretação são bastante bons, as dramaturgias também, com destaque para o cenário de Aurora dos Campos, a iluminação de Tomás Ribas e para a trilha sonora original de Marcello H, Fernando Alves Pinto e de Sabatatella. Fica possível a reflexão sobre os elos de ligação entre as três tragédias citadas pelo espetáculo. Porque aproximam a fé e a falta de lógica, essas peças continuam sendo ótimas bases de apoio para lidarmos com a contemporaneidade.

Criadas e recriadas por diversos dramaturgos ao longo da história, Antígona, Electra e Medeia são três mulheres diferentes. “Trágica.3” começa com a oposição entre sociedade e família, que é definitiva quando Antígona enterra o irmão Polinices, descumprindo uma ordem real. Para ela, filha de Édipo com a avó Jocasta, os laços familiares vêm em primeiro lugar. Electra, por sua vez, representa o oposto: o corte dos laços familiares. Já adulta, ela trama com o irmão Orestes o assassinato da mãe para vingar o pai. No passado, Agamenon empreendeu uma guerra contra Troia em apoio ao irmão Menelau. Para vencer a batalha, levou a filha Ifigênia ao sacrifício, do que nunca foi perdoado pela esposa Clitemnestra, que o matou. Por fim, Medeia surge sem família, sem pátria e sem juventude no fim da vida. Motivada por Eros, a princesa Medeia da Cólquida, contra seu pai, ajuda Jasão a ganhar o velocino de ouro com o qual poderia ser rei de sua terra, Tessália. Expulsos tanto da terra dele como da dela, o casal vai morar em Corinto, onde Jasão se casa com Glaucia, filha do Rei Creonte. Para se vingar do marido, Medeia mata os filhos e vai morar em Atenas, de onde também será expulsa. No fim da vida, assassinará outros homens e fará de seu filho com Egeu o rei da Cólquida, quando enfim poderá descansar. O que une, assim, essas três mulheres é um certo tipo de liderança para a qual elas foram condenadas. Enterrar o irmão, tramar a morte da mãe e assassinar os filhos não são atos trágicos porque terríveis, mas porque expressam um destino do qual elas não poderiam fugir. Ao mesmo tempo em que são protagonistas, nenhuma delas foi rainha, mas, nesses mitos, apenas argumentos de uma visão de mundo que ainda é metáfora para tentar explicar a falta de lógica da vida cotidiana.

À parte as versões mais conhecidas de Sófocles, Eurípedes e de Ésquilo, a dramaturgia de “Trágica.3” chega assinada com “Antígona”, de Caio de Andrade; “Electra”, por Francisco Carlos; e com “Medeia”, pelo dramaturgo alemão Heiner Müller (1929-1995). O resultado mostra grandes desafios vencidos. Conhecem-se as histórias, os conflitos, os valores de cada personagem, sentem-se o sabor e o peso da retórica clássica, mas aprofunda-se no recorte essencial de cada figura a tempo de se ter um panorama das três mulheres, uma ao lado da outra. Nesse sentido, a direção de Guilherme Leme tem os méritos de não se render ao tempo, de valorizar as expressões, de conservar os movimentos retos (e apolíneos!) e equilibrados da boa tragédia encenada.

Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa e Denise Del Vecchio apresentam bons trabalhos dentro das possibilidades de suas personagens. É claro que a imagem da mãe que mata os filhos para se vingar do marido pela traição é mais aterradora que a da filha que planeja o assassinato da mãe e da irmã que enterra o irmão com as próprias mãos, e por isso, aparentemente, o resultado de Del Vicchio é superior ao de suas parceiras. Embora relevante, nem sempre as aparências são justas e aqui é preciso destacar o bom resultado do conjunto. Na viabilização do discurso oral e dos quadros através dele, e na economia dos gestos e das expressões corporais, os três trabalhos são bastante positivos.

Na composição do quadro, os cortes retos e elegantes dos figurinos de Glória Coelho lembram que Antígona, Electra e Medeia são filhas de reis (Édipo, Agamenon, Eetes), mas, mais que isso, eles expressam o raciocínio trágico: as linhas retas de Apolo, o lugar objetivo do destino superior. Nesse sentido, a iluminação de Tomás Ribas conversa bem com o cenário de Aurora dos Campos, ambos os trabalhos construindo um lugar recortado, duro, uniforme inclusive na evolução das cores, apesar dos vídeos, esse uma espécie de marca de abandono da concepção, partindo para algo mais sentimental. A trilha sonora marca a relação do contexto narrativo com o tom de ritual: de um lado, os lamentos. De outro, a sentença divina.

“Tragica.3”, pelo aparato visual, estético e reflexivo que recupera, merece aplausos.

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FICHA TÉCNICA: 
Textos: 
Medeia - Heiner Müller 
Antígona - Caio de Andrade 
Electra - Francisco Carlos 

Elenco: Denise Del Vecchio, Letícia Sabatella, Miwa Yanagizawa, Fernando Alves Pinto e Marcello H

Concepção e Direção: Guilherme Leme 
Cenografia: Aurora dos Campos 
Iluminação: Tomás Ribas

Figurino: Glória Coelho 
Trilha Sonora Original: Fernando Alves Pinto, Leticia Sabatella e Marcello H 
Visagismo: Leopoldo Pacheco 
Coordenação de Comunicação: Daniela Cantagalli 
Programação Visual e Fotos: Victor Hugo Cecatto 
Produção Executiva: Sílvia Rezende 
Direção de Produção: Sérgio Saboya 
Realização: Centro Cultural Banco do Brasil 
Patrocínio: Banco do Brasil