domingo, 12 de agosto de 2012

Milton Nascimento - Nada será como antes (RJ)


Foto: divulgação

A homenagem que Milton Nascimento merecia

            “Milton Nascimento – Nada será como antes – O Musical” é o novo espetáculo com a assinatura Charles Möeller e Cláudio Botelho. No show, há a celebração de 50 anos da obra de um dos mais importantes cantores e compositores brasileiros, o mineiro de coração Milton Nascimento (1942). Ao longo de 90 minutos, 14 músicos (todos os cantores também tocam algum instrumento) oferecem uma galeria de canções que emocionam a plateia do Theatro Net Rio, o Terezão.
            A estrutura neoclássica do cenário com temas pastoris pintados no interior do ambiente na cenografia de Rogério Falcão, auxiliado pelo tom multicor dos figurinos de Möeller situam o espetáculo num lugar árcade onde as emoções serão filtradas. A fazenda, o interior, a roça, é lá que a calma do campo há de acalmar os corações, fazer a mente lembrar do passado e fechar as feridas. Dividido nas quatro estações do ano, a dramaturgia de um espetáculo desse tipo tem como contornos possíveis o grau de popularidade das canções do roteiro. Cada um na plateia, assim, elege as canções que lhe são mais importantes e define o ápice da produção e o tamanho do seu desfecho. “Bola de Meia, Bola de Gude”, “Aqui é o País do Futebol” compõem o Verão, “A Cigarra”, “Um Girassol da Cor do seu Cabelo” e “Nuvem Cigana” dão colorido à Primavera. Clássicos que atravessaram gerações, como “Cais”, “Caçador de Mim”, “Encontros e Despedidas” e “Faca Amolada”, moldam o Outono e continuam pelo Inverno, com “Nada Será como Antes” e “O que foi Feito Deverá”. Não faltam, claro, “Coração de Estudante”, “Nos bailes da vida”, “Capoeira Camara” e “Maria, Maria”.
 Estrela Blanco, Jonas Hammar, Jules Vandystadt, Pedro Aune, Pedro Sol, Sergio Dalcin, Tatih Kohler e Whatson Cardozo, em conjunto e individualmente, apresentam bons números musicais, mas Claudio Lins, Cassia Raquel, Délia Fischer, Lui Coimbra, Marya Bravo e Wladimir Pinheiro lideram o grupo porque, além de técnica, dão lugar para a emoção que as canções pedem.
Dos temas bucólicos às relações, a obra de Milton Nascimento atravessa vários setores da alma humana, abrindo docilmente algumas fendas definitivas. “Nada será como antes” é uma merecida homenagem com toda a dignidade que a música brasileira merece. Aplausos!

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Ficha técnica: 
                             
CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO
Criação e direção

ELENCO: Claudio Lins, Marya Bravo, Délia Fischer, Cassia Raquel, Estrela Blanco, Jonas Hammar, Jules Vandystadt, Lui Coimbra, Pedro Aune, Pedro Sol, Sergio Dalcin, Tatih Kohler, Whatson Cardozo e Wladimir Pinheiro.

DÉLIA FISCHER
Arranjos musicais

JULES VANDYSTADT
Arranjos vocais
    
ROGÉRIO FALCÃO
Cenografia

CHARLES MÖELLER
Figurinos

PAULO CESAR MEDEIROS
Iluminação

MARCELO CLARET
Design de som

TINA SALLES
Coordenação artística

CLAUDIO BOTELHO
Direção musical

CHARLES MÖELLER
Direção

Realização:
Möeller & Botelho
GEO

sábado, 11 de agosto de 2012

O meu sangue ferve por você (RJ)


Foto: divulgação

Excelente divertimento

            Lembra o musical Mamma Mia! na sua estreia em Londres em 1999. Uma história boba, mas, em cuja apresentação, vale cantar o Abba, mostrar para os jovens as músicas mais antigas, divertir-se em família. “O Meu Sangue Ferve Por Você” é desse tipo. Uma comédia “bagaceira”, conforme consta no release, que une as pessoas em volta de canções populares que todos conhecem, embora a minoria assuma que sim. O melhor é o ritmo com que a peça acontece. As cenas, muito bem encadeadas, são cobertas de gags cômicas justapostas de forma a não dar tempo para pensar no tempo. Termina com um gosto de quero mais e com a certeza de que ter ido valeu a pena. Eis aí um entretenimento que entretém.
            Os atores Ana Baird, Helga Nemeczyk, Pedro Henrique Lopes e Marcelo Klein dão vida aos personagens e assinam, também, a direção do espetáculo. Casais que se conhecem, relações que começam e, depois, terminam são os acontecimentos simples, mas não simplórios da trama. A felicidade do amor e a dor da perda são temáticas cheias de humor, pelo carregado uso do meledrama, que passam através da interpretações de canções como “Alma Gêmea”, “Sandra Rosa Madalena”, “Garçom”, “Escrito nas Estrelas”, “Conga Conga”, “Você Não Vale Nada Mas Eu Gosto De Você”, entre outras.
            A direção musical, assinada por Marcelo Eduardo Farias, providencia ao elenco liberdade para improvisar, agilidade na narrativa, ritmo fluente. O pianista Guilherme Borges, cuja presença em cena é positivamente marcante, traz para a obra um contraponto irônico bastante divertido. A produção joga com o público que se diverte com o que vê. Muito lamê, preto, branco e vermelho e estampas de zebra pairam no cenário em que a presença de corações não falta. Com qualidade estética, “O Meu Sangue Ferve Por Você” cumpre o seu papel, sendo um excelente divertimento.

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Elenco
Ana Baird
Helga Nemeczyk
Pedro Henrique Lopes
Marcelo Klein

Roteiro Original: Pedro Henrique Lopes
Textos complementares: Cristiana Pompeo
Direção Musical: Marcelo Eduardo Farias
Supervisão Cênica: Diego Morais




quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Inglaterra - versão brasileira (RJ)


foto: divulgação

Sem medo de encarar o homem

            “Inglaterra – versão brasileira” é tão avassalador quanto simples. Dividido em duas partes, o texto de Tim Crouch, inédito no Brasil, oferece dois tipos de diferentes de fruição: uma difícil e a outra fácil, ambas bastante interessantes. Excelentes em suas interpretações, Pedro Brício e Maíra Gerstner são dirigidos por Bel Garcia de forma a apresentar uma narrativa que se mostra aos poucos, superficialmente nos momentos iniciais, corajosa nos finais, sempre honesta e, sobretudo, densa. Eis aí uma produção para pequenas plateias, porque acontece numa Galeria de Arte (agora no Centro Cultural da Justiça Federal – Cinelândia), mas para público de grande sensibilidade.
            Nas duas cenas, temos os mesmos personagens, afinal, a segunda parte é a continuação da primeira. Ocorre que, como, no início, o público se movimenta pelas galerias, passeia pelos quadros, se envolve com a movimentação constante do elenco, algumas informações são difíceis de serem captadas. A dificuldade aqui, (de fato, não há teses prontas) é positiva. Os personagens de Brício e de Gerstner oferecem indícios de que o pântano é mais profundo do que parece ser e é preciso ter cuidado. No segundo momento, de forma aberta, a situação está exposta e não restam dúvidas do tipo de relação que está sendo estabelecida na cena. Cabe ao espectador mergulhar no contexto e enfrentar essa história. Ficam as perguntas: em que lugar do corpo do humano está verdadeiramente a vida? Em que lugar de mim mesmo eu estou verdadeiramente?
            Três personagens: quem fala (Brício), quem traduz o dito para o idioma do ouvinte (Gerstner) e o interlocutor. Embora a sinopse indique que estamos numa galeria de arte, é possível pensar que o local é simplesmente qualquer um desde que seja onde o personagem de Brício traga um pouco de sua vida para quem o recebe. Ele fala de si, expõe-se em detalhes, ilustra elementos como se fizesse força para destacar a sua especialidade, a sua individual e originalidade. Brício é sensível em dizer, em olhar, em dar vida para a figura. O personagem de Gerstner traduz, e o segredo de seu trabalho está em filtrar o dito com uma dose de neutralidade sutil no início e mais clara no fim que se mostra bastante positiva. Pelos contornos de cada nuance, a direção de Garcia faz evoluir a história e marca, bem aos poucos, sólidas estruturas cênico-narrativas.
            Com elementos muito simples, o tema árido do transplante de órgãos é tratado pelo viés da vida que fica em oposição às duas vidas que poderiam ter ido. A relação internacional, o valor do dinheiro nesse processo, as tensões entre as famílias são elementos da textura que cobre o ser humano vivo em cujo peito bate um coração. “Inglaterra – versão brasileira” não se propõe a outra coisa se não apresentar o homem e é esse o seu principal valor.

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FICHA TÉCNICA:
Texto: Tim Crouch
Direção e Tradução: Bel Garcia
Elenco: Maíra Gerstner e Pedro Brício
Assistente de direção: Raquel André
Direção de movimento: Cristina Moura
Textura sonora: Felipe Storino
Luz: Claudio Tammela
Figurino: Marcelo Olinto
Costureira: Nice Santos Silva
Produção: Tárik Puggina – Nevaxca Produções
Assistente de produção: Gabriel Salabert
Realização: Projéteis – Cooperativa Carioca de Empreendedores Culturais
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti