domingo, 20 de novembro de 2011
Pra Nhá Terra (MG)
Foto: Kika Antunes
Cats brasileiro
Musical é o gênero cênico narrativo mais difícil de se manifestar em todos os seus potenciais aspectos em termos de produção cênica. Seus entraves não são de ordem da estética, mas daquilo que dá a ver a estética, ou seja, a questão técnica: bons atores, bons músicos, bons atores, bons bailarinos, cenários, figurinos, maquiagem, iluminação de primeira linha. O que se conhece por musical hoje foi cristalizado em “Show Boat”, espetáculo de Florenz Zigfield, na Broadway de 1927. Por musical se entende um espetáculo que é um misto de quatro outros gêneros: o vaudeville norte-americano (o espetáculo burlesco), a extravaganza, a revista e a opereta. “Pra Nhá Terra”, novo espetáculo do grupo mineiro Ponto de Partida, é um exemplo de musical da melhor qualidade porque herda do primeiro a união de diferentes habilidades em um só engendramento objetivo: há quem saiba dançar, há quem jogue capoeira, há quem mobilize bastões, há quem toque instrumentos e todos cantam excelentemente bem. Com cinqüenta pessoas no elenco, a produção herda do segundo gênero citado a grandiosidade em que cada cena se torna um cenário pela movimentação dos artistas no palco, pela beleza dos figurinos e da maquiagem de Alexandre Rousset e Tereza Bruzzi, pelo especial uso dos recursos de iluminação de Jorginho de Carvalho. O teatro de revista empresta a comicidade, a leveza, a crítica aos costumes, no caso, os malefícios da desatenção às questões relacionadas ao meio-ambiente. E a opereta trouxe a beleza das composições de Pablo Bertola, Lido Loschi, Júlia Medeiros e Leandro Aguiar e perfeita execução ao vivo das canções que, nesse espetáculo, são trinta e duas dirigidas por Gilvan de Oliveira. O resultado são oitenta minutos de assistência de uma obra que nos faz orgulhar de sermos brasileiros, de estarmos vivos e diante de tão valorosa obra estética.
Ponto de Partida se une ao Grupo Meninos de Araçuaí e apresenta um espetáculo que parte dos poemas de Manuel de Barros (Cuibá/MT, 1916), um dos mais importantes poetas vivos da nossa literatura. Embrenhados na mata, um grupo de pesquisadores encontra-se com os guardiões da natureza que estão empenhados em fazer voltar ao trabalho o Tatu, fiel escudeiro da Nhá Terra, a mãe dos seres vivos, também triste por tantos maus tratos. Cada um, então, começa a participar da construção de uma lista de coisas belas que a natureza oferece. Essa lista será ofertada ao Tatu, jururu em seu buraco. Nesse sentido, a dramaturgia da também diretora do grupo e do espetáculo Regina Bertola faz a produção ficar longe dos pesados espetáculos sobre o meio-ambiente em que, ou necessitam de um interlocutor desqualificado, ou negativizam o tema por tratarem dele de forma moralista, retrógrada, chata, obsoleta. “Pra Nhá Terra” vai direto ao coração, mas faz a emoção transbordar à mente que, essa sim, percebe as árvores, o ar puro, os rios, os pássaros já na saída do teatro, na volta para casa, na vida que segue além da fruição da peça. Na apresentação no Theatro São Pedro (Porto Alegre/RS), qual morador do Rio Grande do Sul não foi pego pela canção “Ipê Amarelo”, esse tão lindamente florido em todos os parques da capital do Estado e em vários dos seus pontos? Quando o texto fala em plantações de girassóis, como não lembrar da paisagem amarela do planalto rio-grandense perto da cidade de Santa Rosa que margeia as estradas para os Sete Povos das Missões? Em cada região do país, e também do mundo, onde o grupo tem se apresentado, as palavras do poeta e dos artistas têm feito o mundo parecer melhor e consideravelmente menor, o que, de fato, faz com que nos sintamos mais responsáveis por ele e, consequentemente, com desafios mais palpáveis e convidativos.
Dramaturgia simples, figurinos leves, cenário maleável, a concentração de “Pra Nhá Terra” está nas canções como também acontece em “Cats” (de Andrew Lloyd Weber), um dos espetáculos de teatro musical mais conhecidos da história do teatro contemporâneo, produzindo uma verdadeira “festa sincera na alma dos seres”. Sobre esse sentimento, não é a toa que “Edelweiss”, música composta para o espetáculo “The Sound of Music” (Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II) se tornou, ao longo dos anos, um hino austríaco e “Do you hear the people sing?”, de “Les Miserables” (Claude-Michel Schömberg, Alan Boublil e Herber Kretzmer), tem sido cantada por manifestantes patrióticos em seus protestos na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos nas últimas décadas. Quando encontra um objeto que o manifesta no melhor da sua plenitude, o musical, enquanto gênero, une a assistência e, nesse caso, o país: mineiros e gaúchos, negros e brancos, seres alados e humanos, gerações muitas, atores, músicos e simples plateias. Todos filhos da Mãe Terra e, por isso, responsáveis pela volta do Tatu.
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Ficha Técnica
Concepção: Ponto de Partida
Dramaturgia e Direção Geral: Regina Bertola
Assistente de direção: João Melo
Texto: Manoel de Barros e Ponto de Partida
Manifesto de Nhá Terra: Regina Bertola
Músicas originais: Pablo Bertola, Lido Loschi, Júlia Medeiros e Leandro Aguiar
Direção musical e Arranjos: Gilvan de Oliveira
Preparação vocal: Babaya
Iluminação: Jorginho de Carvalho
Assistente de iluminação e Operação: Rony Rodrigues
Cenário: João Melo, Lido Loschi, Lourdes Araújo
Equipe de cenário: João Melo, Lido Loschi, Lourdes Araújo, Renato Neves e Ronaldo Pereira
Construção do cenário: Sergio Barbosa
Consultoria e tratamento dos bambus: Lúcio Ventania - Bancruz
Figurino: Alexandre Rousset e Tereza Bruzzi
Assistente de figurino: Beth Carvalho
Confecção de adereços: Ana Vaz, Fábio Rodrigues, Renata Cabrall, Sâmara Evangelista e Sarah Miller
Confecção dos figurinos: Vera Viol
Equipe de produção: Fátima Jorge e Júlia Medeiros
Produção executiva: Eloíza Mendes e Soraia Moraes
Administração: Fernanda Fróes
Patrocínio: Natura
Parceria: Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento - CPCD
Produção e realização: Grupo Ponto de Partida
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Breve Encontro (RJ)
Foto: divulgação
Insosso
Ao contrário do que o programa diz, “Breve Encontro”, espetáculo dirigido por Eduardo Wotzik, é uma vaga lembrança tanto do filme “Desencanto” (Brief Encounter, dirigido por David Lean, 1945), quando da peça “Still Life”, do briânico Noël Coward (1889-1973), pela primeira vez encenada em 1936. A versão brasileira, protagonizada por Carla Ribas consiste, como a análise pretende mostrar, em um empobrecimento da obra primeira pelo mal uso da linguagem teatral que a produção demonstra.
“Still Life” é um drama realista psicológico: A personagem de Laura não é apenas uma figura a contracenar com outras, mas o lugar onde está o espectador. É partir dela, e de sua complexidade psicológica, que vemos os outros personagens, as situações e a si próprios. Coward constrói relações que ilustram o mundo de Laura, o horizonte que, nesse nosso olhar através dela, passa a ser o nosso: a tranqüilidade do seu casamento, a segurança de sua rotina, a alegria dos casais que ela encontra na estação. Então, um dia, Laura conhece Alec e ele tira dela um cisco no olho: gesto que não é corriqueiro, mas de grande importância na peça inglesa. Alec, um médico casado, desconhecido até então, retira do olhar de Laura, uma respeitada e discreta dama da sociedade, o que lhe impedia de enxergar bem. Para Laura, o conforto de sua casa passa a não ser bom, a felicidade dos casais que ela encontra começa a parecer falsa, a tranqüilidade se torna enervante. Em relação direta com o romance “A trégua”, de Mário Benedetti, publicado décadas depois, o aventura amorosa de Laura com Alec se torna, semana após semana, ou mês após mês, um oásis na mesmice insossa a que ela estava acostumada. David Lean, que, anos depois, se tornou conhecido pelos excelentes “A Ponte do Rio Kwai”, Laurence na Arábia” e “Doutor Jivago”, utilizou todo o contexto acima descrito como conceito para a sua definição da linguagem cinematográfica em “Desencanto”. A personagem de Laura (Celia Johnson) é o lugar de onde partem os enquadramentos ou onde eles terminam. Closes e mais closes na personagem, sua voz over the scene e o excelente trabalho de som que torna os risos, a música de Rachmaninoff, os pássaros e, assim, todos os sinais de vida em verdadeiros tormentos para a protagonista que se sente culpada deram ao diretor a merecida indicação ao Oscar. É justamente porque há dois mundos ou duas visões de mundo em conflito que a decisão de Laura e sua responsabilidade é tão importante. Por causa disso, a peça e o filme foram censurados por anos em vários países do mundo.
Eduardo Wotzik, na sua versão teatral de “Still Life” (livre e inadvertidamente), tornou o realismo psicológico em melodrama. O espectador de uma peça do primeiro gênero julga como se estando dentro da situação. O do segundo faz julgamentos como estando moralmente de fora. As investidas da direção em tornar importantes os pensamentos de Laura resultam em um esteticamente empobrecido exercício de psicologização: um tom meloso na retórica do texto, ambientes escuros (o clima noir dos anos 40 ajuda nos dramas policiais, o que não eram tema de Lean e, menos ainda, de Coward.) e muitos solilóquios. O entre e sai de cenários lembra “Les Éphémères”, que Ariane Mnouchkine trouxe ao Brasil, embora lá haja o conceito do efêmero e da brevidade no tema central da encenação, enquanto aqui é a opção é meramente ilustrativa. Não é o fato dos encontros entre Laura e Alec serem curtos e ocasionais que é importante, mas, sim, a força destes encontros em representar, para Laura, uma sensação oposta àquela que a protagonista está habituada. Alec representa para Laura a vida que ela pensava ter pedido: still life (vida ainda). Daí que as histriônicas trocas de cenário da produção de Wotzik desfocam a atenção do espectador e emperram uma qualificada fruição.
Fernando Arze deixa ver uma vitimizada construção. O ritmo da respiração é irregular, o personagem se torna ofegante, infantil e, por isso, superficial. O tom é monocorde e, assim, monótono, de forma que a figura, nem de longe, é forte o bastante para representar a oposição necessária ao desenvolvimento da personagem Laura. Carla Ribas defende elogiosamente sua personagem protagonista diante da difícil, porque equivocada, concepção da direção. Sua dicção é clara, seus gestos são suaves e suas intenções são, dentro do possível, coerentes.
A direção de arte de José Dias (iluminação de Fernanda Mantovani, os figurinos de Anna Cecília Cabral e a trilha sonora de Bernardo Gebara) atende ao conceito com valorosa obediência. Em termos estéticos, os signos estão dispostos como pretendiam estar e, por isso, devem receber uma avaliação positiva.
De forma geral, a linguagem teatral está posta a desserviço de “Still Life”, ainda que, em locais isolados, possam ser observados resultados positivos nesse esquecível “Breve Encontro”.
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Ficha técnica:
Adaptação e Direção Geral: Eduardo Wotzik
Direção de Arte: José Dias
Figurinos: Anna Cecília Cabral
Iluminação: Fernanda Montovani
Trilha Sonora: Bernardo Gebara
Assistente de Direção: Dani Barbosa
Assessoria de Imprensa: Gabriela Mota
Visagista: Dani Carneiro
Cenotécnico: Paulo Fernandes
Contra-regras: Gleice Caxias e Marcelo Mattos
Operador de Som: Pedro Quintaes
Operador de Luz: Mario Junior
Assistente e Montagem de Luz: Alexandre Souza e Tiago Mantovani
Produção Executiva: Márcia Sarquis
Diretor de Produção: Luiz Prado
Realização: República Universal das Artesm Dannemann Entretenimento e Centro de Investigação Teatral.
Elenco:
Carla Ribas
Fernando Arze
Paulo Giardini
Cristina Rudolph
Rubens de Araújo
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Policarpo Quaresma (RJ)
Foto: divulgação
23 peças e um espetáculo
“Policarpo Quaresma” faz parte da “Trilogia Carioca Antunes Filho” também composta por “Foi Carmen” e por “Lamartine Babo”, todos produzidos pelo Grupo Macunaíma e pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT – SESC/SP) e apresentados no Teatro Nelson Rodrigues – Caixa Federal no Rio de Janeiro, durante o mês de outubro de 2011. Dirigido por Antunes Filho (1929), o espetáculo é uma atualização para o teatro do romance pré-modernista “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto (1881-1922), lançado em 1911. Em cena, 23 atores encenam dezenas de personagens liderados por Lee Taylor, que valorosamente interpreta o título.
Os mais de cento e vinte minutos de fruição resultam em uma verdadeira e qualificada aula de ritmo teatral. O experiente e célebre encenador paulista oferece, junto de seus assistentes e produtores, um grande espetáculo construído com muito pouco. Não há cenários, os movimentos de luz são escassos e o figurino, no todo de suas escolhas, não exibem nenhum luxo. A riqueza de “Policarpo Quaresma”, assim, não está visível no dinheiro gasto com objetos de cena ou com efeitos concretamente plásticos, mas no excelente uso da teatralização dos signos mais essenciais e, sobretudo, na articulação de seu conjunto. A história é contada a partir de um encadeamento de cenas que, conferindo um ritmo vibrante à história original, essa narrada em capítulos, tornando vivas as diversas possibilidades de significação existentes em sua estrutura.
A narrativa pode ser divida em quatro partes maiores. Na primeira, conhecemos Policarpo Quaresma: funcionário do Ministério do Exército, interessado em descobrir sobre o folclore nacional – histórias antigas, canções, velhos costumes perdidos com o tempo. Sua pesquisa faz com ele descubra que todos esses hábitos são, na verdade, importados das culturas europeias e, por isso, não originariamente brasileiras. Na segunda parte, a cultura indígena surge como fonte do brasileirismo essencial. Quaresma ensina seus amigos o que aprende com os índios, chegando a escrever uma carta para o Congresso Nacional, sugerindo a substituição da língua portuguesa pelo tupi-guarani, segundo ele, o verdadeiro idioma nacional. Ao escrever um documento na língua indígena, irrita seus superiores, o que o leva a ser internado em um manicômio. A convivência com os loucos e o distanciamento da cidade o faz pensar na sugestão de sua afilhada quanto à sua próxima moradia. A terceira parte começa quando Quaresma, tão logo tenha alta, adquire um sítio no interior, onde passa a se dedicar à agricultura e à botânica, preservando, de forma discreta, seus velhos ideais ufanistas. Seu recolhimento é atrapalhado por duas situações: o aparecimento devastador de milhares de formigas e, ironicamente, a perseguição de políticos da localidade que exigem do novo morador que ele tome uma posição. A quarta parte começa com a eclosão da Revolta da Armada, em que oficiais da Marinha se rebelam contra a presidência da república, o que faz de Quaresma um oficial militar à serviço da unidade nacional contra os rebeldes e, ainda, um fervoroso patriota. O fim, que é triste, surge como um desfecho após a sucessão de capítulos que, de modo geral, funcionam quase que independentes. Enquanto literatura, “Triste fim de Policarpo Quaresma” só é considerado pré-modernista porque a Semana de Arte Moderna aconteceu onze anos após a sua publicação. Quaresma é um anti-herói moderno uma vez que suas ações não encontram respaldo em nenhum de seus pares, que o vêem com irônico descrédito. No todo, a narrativa é uma importante obra artística cujo caráter crítico à política nacional é o seu principal mote, fazendo da história tão atual no início do século XX, como no do século XXI.
A atualização para o teatro se esforça no apagamento da divisão em partes. Uma cena está acontecendo e, de repente, uma procissão de atores surge e cruza o palco, saindo em seguida. O gesto prova que nenhuma avaliação de uso de instrumento teatral deve ser feita realizada fora de seu contexto. A ilustração, criticada negativamente em muitas peças, nas mãos de Antunes Filho, neste espetáculo, vale ouro. A ordem das cenas, o modo como a próxima inicia sem que a anterior tenha terminado, a inserção de quadros e a movimentação irregular de grupos de personagens não só não deixa o ritmo perder o fôlego como, do ponto de vista estético, enche os olhos e enriquece a produção. Antunes Filho faz ver vários níveis, constrói jogos e propõe a leveza como convite à deliciosa fruição.
Poucos recursos são usados na viabilização dos personagens, de forma que, por estarem próximos da realidade além da narrativa, oferecem um ponto de leitura da peça como atualização do gênero “comédia de costumes”. Uma vez que as peças lidas a partir dessa esfera geralmente têm poucos personagens e sustentam uma trama bem amarrada, o que não é o caso aqui, observa-se que a encenação bebe, e muito, na fonte da alegoria carnavalesca. A união de uma história com forte apelo crítico à política brasileira a um grande e afinado elenco, adicionando aí pouco, mas qualificado investimento em recursos concretamente plásticos (os figurinos de Rosângela Ribeiro são simples, práticos e potentes), o resultado é a leveza já citada, essa tão cara a quem pretende fazer mais de duas horas voarem diante de nossos olhos numa boa peça de entretenimento.
Algumas interpretações merecem destaque. Angélica Colombo (uma das loucas), Geraldo Mário (Anastácio) e Marcos de Andrade (Floriano Peixoto) aproveitam os poucos momentos que seus personagens têm para mostrar um grande trabalho, fincando na narrativa suas contribuições que se tornam, assim, dificilmente esquecíveis. Diferente da maior parte das figuras, aquelas que ganham vida na pele de Priscila Gontijo (Olga) e de Natalie Pascal (Ismênia) têm a responsabilidade de trazer toda a história para um clima menos carnavalesco e mais reflexivo, sofrendo, por isso, o risco de promover um “banho de água fria” na explosão de ações proposta pelo tom geral da peça. No entanto, isso não acontece e seu mérito se converte em força para o multiplicar de ações que acontecem após suas entradas. É o apoio, a preocupação e o conselho de Olga que fazem Policarpo ser visto pela audiência não como um louco, mas como um herói. Por outro lado, é a loucura final de Ismênia que torna humanos todos os personagens em cena.
Sem dúvida, Lee Taylor está brilhante em sua interpretação do personagem protagonista. A fragilidade criada pelo aspecto franzino do intérprete está em oposição à força de seu papel na narração: o sujeito em volta de quem toda a história gira. O resultado é a sua humanidade: somos, afinal, mais fracos que as pedras e as árvores, mas as criaturas mais inteligentes da natureza. O olhar delicado (nada efeminado) no emprego de sua construção é um apelo para que torçamos por ele na realização de seu heróico intento. A cena em que, magistralmente, ele sapateia o Hino Nacional enquanto mata as formigas que lhe atacam, um dos momentos mais vibrantes de toda a encenação, pode ser lida como uma metáfora de um povo que está cansado daqueles que, corruptos, surrupiam as riquezas que deveriam ser de todos. O falar bem articulado enche sua retórica de confiabilidade e consequente liderança. A precisão e a calma dos movimentos permitem a adequada fruição. Em tudo, o trabalho desse ator, nessa peça, está de parabéns.
Considerando que a raiz do teatro é uma obra de expressão de arte em que um ator interpreta um personagem diante de alguém, “Policarpo Quaresma”, enquanto espetáculo cênico, merece o aplauso por construir, no mínimo 23 peças, todas elas unidas numa grande e bastante meritosa produção.
*
Ficha técnica:
Texto: Lima Barreto
Adaptação e Encenação: Antunes Filho
Assistente de Encenação: Michelle Boesche
Cenografia e Figurinos: Rosângela Ribeiro
Desenho de Luz: Edson FM e Ederson Duarte
Músicas ao vivo: André de Araújo
Produção executiva: Emerson Danesi
Interpretação: Adriano Bolshi, André Bubman, André de Araújo, Angélica Colombo, Carlos Morelli, Felipe Hofstatter, Fernando Aveiro, Flávia Strongolli, Freed Mesquita, Geraldo Mário, Ivo Leme, João Gyongy, Juliana Calderón, Lee Taylor, Marcos de Andrade, Marília Moreira, Michelle Boesche, Natalie Pascoal, Priscila Gontijo, Rafaela Cassol, Ruber Gonçalves, Ygor Fiori e Walter Granieri.
23 peças e um espetáculo
“Policarpo Quaresma” faz parte da “Trilogia Carioca Antunes Filho” também composta por “Foi Carmen” e por “Lamartine Babo”, todos produzidos pelo Grupo Macunaíma e pelo Centro de Pesquisa Teatral (CPT – SESC/SP) e apresentados no Teatro Nelson Rodrigues – Caixa Federal no Rio de Janeiro, durante o mês de outubro de 2011. Dirigido por Antunes Filho (1929), o espetáculo é uma atualização para o teatro do romance pré-modernista “Triste fim de Policarpo Quaresma”, de Lima Barreto (1881-1922), lançado em 1911. Em cena, 23 atores encenam dezenas de personagens liderados por Lee Taylor, que valorosamente interpreta o título.
Os mais de cento e vinte minutos de fruição resultam em uma verdadeira e qualificada aula de ritmo teatral. O experiente e célebre encenador paulista oferece, junto de seus assistentes e produtores, um grande espetáculo construído com muito pouco. Não há cenários, os movimentos de luz são escassos e o figurino, no todo de suas escolhas, não exibem nenhum luxo. A riqueza de “Policarpo Quaresma”, assim, não está visível no dinheiro gasto com objetos de cena ou com efeitos concretamente plásticos, mas no excelente uso da teatralização dos signos mais essenciais e, sobretudo, na articulação de seu conjunto. A história é contada a partir de um encadeamento de cenas que, conferindo um ritmo vibrante à história original, essa narrada em capítulos, tornando vivas as diversas possibilidades de significação existentes em sua estrutura.
A narrativa pode ser divida em quatro partes maiores. Na primeira, conhecemos Policarpo Quaresma: funcionário do Ministério do Exército, interessado em descobrir sobre o folclore nacional – histórias antigas, canções, velhos costumes perdidos com o tempo. Sua pesquisa faz com ele descubra que todos esses hábitos são, na verdade, importados das culturas europeias e, por isso, não originariamente brasileiras. Na segunda parte, a cultura indígena surge como fonte do brasileirismo essencial. Quaresma ensina seus amigos o que aprende com os índios, chegando a escrever uma carta para o Congresso Nacional, sugerindo a substituição da língua portuguesa pelo tupi-guarani, segundo ele, o verdadeiro idioma nacional. Ao escrever um documento na língua indígena, irrita seus superiores, o que o leva a ser internado em um manicômio. A convivência com os loucos e o distanciamento da cidade o faz pensar na sugestão de sua afilhada quanto à sua próxima moradia. A terceira parte começa quando Quaresma, tão logo tenha alta, adquire um sítio no interior, onde passa a se dedicar à agricultura e à botânica, preservando, de forma discreta, seus velhos ideais ufanistas. Seu recolhimento é atrapalhado por duas situações: o aparecimento devastador de milhares de formigas e, ironicamente, a perseguição de políticos da localidade que exigem do novo morador que ele tome uma posição. A quarta parte começa com a eclosão da Revolta da Armada, em que oficiais da Marinha se rebelam contra a presidência da república, o que faz de Quaresma um oficial militar à serviço da unidade nacional contra os rebeldes e, ainda, um fervoroso patriota. O fim, que é triste, surge como um desfecho após a sucessão de capítulos que, de modo geral, funcionam quase que independentes. Enquanto literatura, “Triste fim de Policarpo Quaresma” só é considerado pré-modernista porque a Semana de Arte Moderna aconteceu onze anos após a sua publicação. Quaresma é um anti-herói moderno uma vez que suas ações não encontram respaldo em nenhum de seus pares, que o vêem com irônico descrédito. No todo, a narrativa é uma importante obra artística cujo caráter crítico à política nacional é o seu principal mote, fazendo da história tão atual no início do século XX, como no do século XXI.
A atualização para o teatro se esforça no apagamento da divisão em partes. Uma cena está acontecendo e, de repente, uma procissão de atores surge e cruza o palco, saindo em seguida. O gesto prova que nenhuma avaliação de uso de instrumento teatral deve ser feita realizada fora de seu contexto. A ilustração, criticada negativamente em muitas peças, nas mãos de Antunes Filho, neste espetáculo, vale ouro. A ordem das cenas, o modo como a próxima inicia sem que a anterior tenha terminado, a inserção de quadros e a movimentação irregular de grupos de personagens não só não deixa o ritmo perder o fôlego como, do ponto de vista estético, enche os olhos e enriquece a produção. Antunes Filho faz ver vários níveis, constrói jogos e propõe a leveza como convite à deliciosa fruição.
Poucos recursos são usados na viabilização dos personagens, de forma que, por estarem próximos da realidade além da narrativa, oferecem um ponto de leitura da peça como atualização do gênero “comédia de costumes”. Uma vez que as peças lidas a partir dessa esfera geralmente têm poucos personagens e sustentam uma trama bem amarrada, o que não é o caso aqui, observa-se que a encenação bebe, e muito, na fonte da alegoria carnavalesca. A união de uma história com forte apelo crítico à política brasileira a um grande e afinado elenco, adicionando aí pouco, mas qualificado investimento em recursos concretamente plásticos (os figurinos de Rosângela Ribeiro são simples, práticos e potentes), o resultado é a leveza já citada, essa tão cara a quem pretende fazer mais de duas horas voarem diante de nossos olhos numa boa peça de entretenimento.
Algumas interpretações merecem destaque. Angélica Colombo (uma das loucas), Geraldo Mário (Anastácio) e Marcos de Andrade (Floriano Peixoto) aproveitam os poucos momentos que seus personagens têm para mostrar um grande trabalho, fincando na narrativa suas contribuições que se tornam, assim, dificilmente esquecíveis. Diferente da maior parte das figuras, aquelas que ganham vida na pele de Priscila Gontijo (Olga) e de Natalie Pascal (Ismênia) têm a responsabilidade de trazer toda a história para um clima menos carnavalesco e mais reflexivo, sofrendo, por isso, o risco de promover um “banho de água fria” na explosão de ações proposta pelo tom geral da peça. No entanto, isso não acontece e seu mérito se converte em força para o multiplicar de ações que acontecem após suas entradas. É o apoio, a preocupação e o conselho de Olga que fazem Policarpo ser visto pela audiência não como um louco, mas como um herói. Por outro lado, é a loucura final de Ismênia que torna humanos todos os personagens em cena.
Sem dúvida, Lee Taylor está brilhante em sua interpretação do personagem protagonista. A fragilidade criada pelo aspecto franzino do intérprete está em oposição à força de seu papel na narração: o sujeito em volta de quem toda a história gira. O resultado é a sua humanidade: somos, afinal, mais fracos que as pedras e as árvores, mas as criaturas mais inteligentes da natureza. O olhar delicado (nada efeminado) no emprego de sua construção é um apelo para que torçamos por ele na realização de seu heróico intento. A cena em que, magistralmente, ele sapateia o Hino Nacional enquanto mata as formigas que lhe atacam, um dos momentos mais vibrantes de toda a encenação, pode ser lida como uma metáfora de um povo que está cansado daqueles que, corruptos, surrupiam as riquezas que deveriam ser de todos. O falar bem articulado enche sua retórica de confiabilidade e consequente liderança. A precisão e a calma dos movimentos permitem a adequada fruição. Em tudo, o trabalho desse ator, nessa peça, está de parabéns.
Considerando que a raiz do teatro é uma obra de expressão de arte em que um ator interpreta um personagem diante de alguém, “Policarpo Quaresma”, enquanto espetáculo cênico, merece o aplauso por construir, no mínimo 23 peças, todas elas unidas numa grande e bastante meritosa produção.
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Ficha técnica:
Texto: Lima Barreto
Adaptação e Encenação: Antunes Filho
Assistente de Encenação: Michelle Boesche
Cenografia e Figurinos: Rosângela Ribeiro
Desenho de Luz: Edson FM e Ederson Duarte
Músicas ao vivo: André de Araújo
Produção executiva: Emerson Danesi
Interpretação: Adriano Bolshi, André Bubman, André de Araújo, Angélica Colombo, Carlos Morelli, Felipe Hofstatter, Fernando Aveiro, Flávia Strongolli, Freed Mesquita, Geraldo Mário, Ivo Leme, João Gyongy, Juliana Calderón, Lee Taylor, Marcos de Andrade, Marília Moreira, Michelle Boesche, Natalie Pascoal, Priscila Gontijo, Rafaela Cassol, Ruber Gonçalves, Ygor Fiori e Walter Granieri.
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