Foto: divulgação
Médée
O espetáculo Médée (Medeia), participante do 18º Porto Alegre em Cena, não é a atualização para teatro do clássico de Eurípedes, mas a versão teatral do texto de Max Rouquette (1908-2005), autor expoente da língua occitana, idioma falado no sul da França. Escrito em 2003, o texto substituiu o projeto inicial do diretor Jean-Louis Martinelli, diretor do Théâtre Nanterre-Amandiers, desde 2002, que era produzir um texto de Heiner Müller, com o elenco Burkina Faso, país do centro-oeste africano. A primeira montagem, de 2003, foi sucedida por mais duas 2008 e 2009. Nela, o espectador se encontra com uma Medeia vista a partir de sua relação com as forças superiores (versão que também pode ser encontrada na Medeia de Pasolini, filme de 1969, cuja protagonista é Maria Callas), sem dúvida, um ponto de vista diferente e interessante de trazer a personagem clássica para os dias de hoje.
O palco é a frente da casa de Medeia. A peça começa quando já faz três dias que Jasão está sumido e ninguém sabe de seu paradeiro. Há uma criada um criado e os dois filhos do casal, esses últimos interpretados, em Porto Alegre, por dois atores mirins alunos da atriz Gabriela Greco. Há, também, o célebre coro de mulheres, que, nessa versão, canta salmos em uma língua africana, cujas legendas não apareceram na sessão a que eu assisti (e não fizeram falta, impressionando positivamente pela sua peculiar sonoridade). Em todas as cenas, é possível encontrar muitas marcas que embasam a tese exposta no parágrafo de abertura: a) a fala inicial, em que a Ama se reporta a Deus; b) os títulos do coro: Salmo do Perdão, Salmo das Crianças, Salmo das Mulheres, Salmo do Pressentimento...; c) a postura curvada dos atores que interpretam servos versus a coluna ereta dos atores que interpretam nobres, além das expressões faciais neutras de todos, o que exibe a submissão ao destino; d) o tom ritualístico com que o Rei é recebido (a acolhida não é espontânea, mas cultural, isto é, o Rei não é recebido daquele jeito porque esse é sentimento, mas porque aquele é o costume); e) o jogo cênico estabelecido na cena entre o Creonte e Medeia, ambos de linhagem real (rei = ungido pelo sagrado); f) a recuperação do passado de “feiticeira” de Medeia; g) o final, em que a protagonista é vista voando pelo espaço; etc. Em várias passagens, a concepção se reafirma, converge, se estrutura enquanto um objeto único, coeso e coerente consigo próprio, tornando a produção bastante valorosa. Um autor, diretor ou/e ator pode ter o ponto de vista que quiser sobre um determinado texto na hora de concretizá-lo cenicamente, mas o ato da encenação precisa ser fundamentado em bases sólidas que, no todo de suas potencialidades, seja o resultado de um projeto pensado esteticamente em cada uma de suas partes. EmMédée, é exatamente isso o que se vê para o deleite da plateia da capital gaúcha.
Odile Sankara, que interpreta Medeia, está excelente em todos os pontos elementares de sua construção. Junto dela, o elenco, de um modo geral, ajuda a construir grandes momentos. Para destacar um instante que poderia parecer um detalhe dispensável, cito a expressão da líder do grupo de mulheres (Corifeu): na cena em que as mulheres tentam demover Medeia do assassinato dos próprios filhos, o rosto da atriz está impassível, forte, concentrado, potente. Tem grande mérito a produção em que, da alta protagonista ao mais coadjuvante dos personagens, todos exibem o resultado de um trabalho de primeiríssima qualidade como é o caso aqui.
Se figurinos, cenário e trilha sonora estão impecáveis, a iluminação apresenta-se como um recurso bastante mal utilizado. A produção está quase durante todo o tempo da encenação iluminada com luz geral, sem focos que favoreçam os diferentes momentos/lugares de sua narração. Luzes atrás do cenário vazam pessimamente para a plateia e, o pior de tudo, um objeto espelhado reflete a forte luz dos refletores nos olhos da audiência que é perturbada por isso.
Termina o Festival com a graça de um elenco de artistas que recebe os aplausos como se celebrasse a sua vida, a sua vinda, o seu talento expresso na peça a que acabou-se de assistir. Um brinde a todos nós.
* Texto escrito em setembro de 2011 por ocasião do 18º Porto Alegre em Cena.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
Pterodátilos (RJ)
Foto: Carol Sachs
Pterodátilos
Pterodátilos, escrito em 1993, por Nicky Silver, é um texto teatral sem protagonistas. Ou melhor, o imenso esqueleto de dinossauro, que é, ao longo do texto, construído aos poucos por um dos personagens na sala de sua casa, é que é o protagonista. No entanto, há um personagem vertical, isto é, há, entre as figuras, uma que é vértice da história contada pelo texto. Esse personagem não é nem o Pai (Arthur), nem a Filha (Emma). Tampouco é a Mãe (Grace) ou o Noivo (Tommy). Trata-se do Filho (Todd), pois é, a partir de sua chegada, que o recorte inicial da narrativa acontece. Será ele, também, aquele que terminará a história, isto é, fechará o recorte aberto.
(Se você não assistiu ao espetáculo e não quer saber como ele termina, por favor, pare esta leitura por aqui. Eu vou contar, aviso, como é o fim da história contada na peça.)
Dito isso é preciso que fique claro qual é o ponto de leitura mais seguro (seguro porque é através desse ponto que os demais elementos que estruturam a narrativa se organizam quando produzidos de forma regular e positivamente equilibrada). Todd tem AIDS. Depois de cinco anos longe, ele retorna para o seio de sua família milionária (o pai é presidente de um banco). Por ter AIDS, é convencionalmente certo que ele vai morrer em breve, embora não apresente sintomas aparentes. Todd é, assim, o moribundo da família quando a história começa a ser contada. É ele quem que está mais próximo da morte em uma família “sã”: o pai é um homem de negócios bem sucedido, a mãe é uma socialite invejada, a irmã está prestes a se casar com o namorado. Nicky Silver, habilmente, não para por aí, avançando através das aparências e exterminando com elas a seguir.
Logo nas primeiras cenas, o personagem Todd se apresenta como um membro da dinossauromania (alguém lembra da série A família dinossauro, tão famosa no início dos anos 90?), entrando e saindo com livros sobre as criaturas extintas há milhões de anos. A metáfora, então, se estabelece. Como aquelas criaturas que dominaram o mundo por centenas de séculos foram extintas? A milionária família Duncan e os dinossauros estão, no nível da linguagem, em similitude, o que se confirma ao longo da peça quando um a um os personagens todos caem. Todd será a única exceção, ele que é o filho “aidético”, o moribundo, o aparentemente mais fraco e aquele mais próximo da morte. Como um esqueleto de dinossauro, ele permanecerá vivo e em pé depois do fim da história, à guisa do que aconteceu com sua família que dominava o mundo.
Esse, no entanto, não foi o ponto de leitura de Felipe Hirsch, diretor dePterodátilos, peça participante do 18º Porto Alegre em Cena. Ao permitir que Marco Nanini, a estrela do elenco, o ator com (merecidamente) o maior nome e pelo qual a maioria das pessoas acorrem à audiência, interpretasse os personagens Emma e Arthur (a Filha e o Pai), Hirsch apaga (ou diminui consideravelmente) a importância do personagem Todd, o Filho. Uma vez que não há jeito certo ou errado de atualizar uma obra (Nicky Silver faz literatura. Hirsch faz teatro) construindo outra, resta à análise evidenciar os resultados, sem que seja impróprio perder de vista a obra primeira.
O cenário criado por Daniela Thomas, uma das cineastas mais importantes do Brasil, assume importância fundamental nessa montagem produzida por Carolina Tavares e Fernando Libonati. Em um primeiro momento, o balanço do palco acrescenta a sensação de perturbação em que se encontra a família Duncan: uma filha que não tem memórias, uma mãe alcoólatra, um noivo virgem, um pai ausente, um filho doente. Aos poucos, o chão começa a falhar e o porão, onde estão os ossos de dinossauro, começa a emergir. A estrutura familiar, como o solo onde a família pisa, começa a degringolar. Excelentemente viabilizada, a proposta faz a produção atingir níveis altíssimos de qualidade estética, sendo esse um de seus maiores méritos. Não menos importantes, a trilha sonora e a iluminação, de Nervoso e de Antônio Guedes respectivamente, são pontuais, certeiras, adequadas e auxiliam positivamente na construção dos melhores momentos da representação. Quem assiste tem a certeza de que está vendo uma rara obra de arte e, por isso, de grande valor.
Não muito diferente pode ser a avaliação das interpretações. Relegado a um (estranho) segundo plano, Todd ganha pouco espaço para se expressar, o mesmo espaço que, desde o texto, tem Tommy. Álamo Facó (o Filho) e Felipe Abib (o Noivo), dentro do que lhes foi dado de chances de mostrar o seu trabalho, aproveitam o disponível e garantem uma discreta, mas importante participação. Mariana Lima, sem dúvida, é uma das melhores e maiores participações de Pterodátilos. Beneficiada por Silver, mas também por Hirsch, a atriz aproveita-se da situação cambaleante de sua personagem alcoolizada (Grace, a mãe) e providencia à cena e aos seus pares os momentos mais fortes de toda a narrativa. Com Nanini, Lima brilha radiante, sobretudo, nos momentos iniciais da peça em que a comicidade tem mais espaço para acontecer.
Alvo de muitas críticas, a reação da plateia, que chega a gargalhar em alguns momentos, pode ser negativamente criticada por quem esteve sedento por mais tempo livre para a abstração do texto. Trata-se de um engano, já que é absolutamente necessário que a primeira parte do espetáculo seja contada em meio a muitos risos. Usando uma metáfora, chamo a atenção para o fato de que Silver e Hirsch necessitam que uma “casa” seja construída no início para, a seguir, ser destruída. Em outras palavras, quem ri no início do espetáculo, sofrerá mais facilmente os beliscões no fim dele. Quem gargalha dos personagens antes perceberá depois que, na verdade, gargalhava de si mesmo.
O ponto fundamental e decepcionante desta montagem é a responsabilidade dada a Marco Nanini na produção. Já com cabelos brancos, um senhor usando um vestido de noiva chama a atenção e se destaca até mesmo num incrível cenário de Daniela Thomas, numa adequada luz de Antônio Guedes e com quem quer que esteja ao seu lado bem trabalhando. É impossível dizer que Marco Nanini não é um excelente ator e seria mentiroso apontar algum aspecto negativo de seu trabalho em Pterodátilos. O problema é da produção que, ao permitir que ele interpretasse esses dois personagens, modificasse o ponto de vista tradicional do texto, desequilibrando, assim, a obra, e fazendo com que tudo e todos parecessem servir negativamente para a indução do foco para Nanini. Uma vez que Emma e Arthur são tão bons personagens como a Mãe e o Noivo na dramaturgia, a concepção viabilizada leva a peça a descarrilhar, embora não chegue a despencar porque, mais uma vez, Marco Nanini é, de fato, um grande ator e está ao lado de excelentes profissionais tanto no palco, como na ficha técnica. É preciso que se diga, porém, que a produção perdeu a oportunidade preciosa de figurar entre os melhores espetáculos do 18º Porto Alegre em Cena quando optou por carregar “as tintas” das cenas de Emma e de Arthur e o desenvolvimento de seus conflitos menores, esses quase totalmente cômicos, isto é, próprios apenas da primeira parte de Pterodátilos.
Quando se fala em signos teatrais, na verdade, se fala em signos tornados teatrais. O teatro utiliza, para a sua viabilização, elementos advindos de diversos sistemas culturais que, a priori, não são seus. A importância da escolha dos atores e de sua distribuição nos papeis, considerando o fato de que os atores também são signos tornados teatrais postos a serviço da produção, fica evidente na análise desse espetáculo de Felipe Hirsch. Faz, por isso, pensar e, não tanto quanto se esperava, aplaudir.
* Texto escrito em setembro de 2011 por ocasião do 18º Porto Alegre em Cena.
Pterodátilos
Pterodátilos, escrito em 1993, por Nicky Silver, é um texto teatral sem protagonistas. Ou melhor, o imenso esqueleto de dinossauro, que é, ao longo do texto, construído aos poucos por um dos personagens na sala de sua casa, é que é o protagonista. No entanto, há um personagem vertical, isto é, há, entre as figuras, uma que é vértice da história contada pelo texto. Esse personagem não é nem o Pai (Arthur), nem a Filha (Emma). Tampouco é a Mãe (Grace) ou o Noivo (Tommy). Trata-se do Filho (Todd), pois é, a partir de sua chegada, que o recorte inicial da narrativa acontece. Será ele, também, aquele que terminará a história, isto é, fechará o recorte aberto.
(Se você não assistiu ao espetáculo e não quer saber como ele termina, por favor, pare esta leitura por aqui. Eu vou contar, aviso, como é o fim da história contada na peça.)
Dito isso é preciso que fique claro qual é o ponto de leitura mais seguro (seguro porque é através desse ponto que os demais elementos que estruturam a narrativa se organizam quando produzidos de forma regular e positivamente equilibrada). Todd tem AIDS. Depois de cinco anos longe, ele retorna para o seio de sua família milionária (o pai é presidente de um banco). Por ter AIDS, é convencionalmente certo que ele vai morrer em breve, embora não apresente sintomas aparentes. Todd é, assim, o moribundo da família quando a história começa a ser contada. É ele quem que está mais próximo da morte em uma família “sã”: o pai é um homem de negócios bem sucedido, a mãe é uma socialite invejada, a irmã está prestes a se casar com o namorado. Nicky Silver, habilmente, não para por aí, avançando através das aparências e exterminando com elas a seguir.
Logo nas primeiras cenas, o personagem Todd se apresenta como um membro da dinossauromania (alguém lembra da série A família dinossauro, tão famosa no início dos anos 90?), entrando e saindo com livros sobre as criaturas extintas há milhões de anos. A metáfora, então, se estabelece. Como aquelas criaturas que dominaram o mundo por centenas de séculos foram extintas? A milionária família Duncan e os dinossauros estão, no nível da linguagem, em similitude, o que se confirma ao longo da peça quando um a um os personagens todos caem. Todd será a única exceção, ele que é o filho “aidético”, o moribundo, o aparentemente mais fraco e aquele mais próximo da morte. Como um esqueleto de dinossauro, ele permanecerá vivo e em pé depois do fim da história, à guisa do que aconteceu com sua família que dominava o mundo.
Esse, no entanto, não foi o ponto de leitura de Felipe Hirsch, diretor dePterodátilos, peça participante do 18º Porto Alegre em Cena. Ao permitir que Marco Nanini, a estrela do elenco, o ator com (merecidamente) o maior nome e pelo qual a maioria das pessoas acorrem à audiência, interpretasse os personagens Emma e Arthur (a Filha e o Pai), Hirsch apaga (ou diminui consideravelmente) a importância do personagem Todd, o Filho. Uma vez que não há jeito certo ou errado de atualizar uma obra (Nicky Silver faz literatura. Hirsch faz teatro) construindo outra, resta à análise evidenciar os resultados, sem que seja impróprio perder de vista a obra primeira.
O cenário criado por Daniela Thomas, uma das cineastas mais importantes do Brasil, assume importância fundamental nessa montagem produzida por Carolina Tavares e Fernando Libonati. Em um primeiro momento, o balanço do palco acrescenta a sensação de perturbação em que se encontra a família Duncan: uma filha que não tem memórias, uma mãe alcoólatra, um noivo virgem, um pai ausente, um filho doente. Aos poucos, o chão começa a falhar e o porão, onde estão os ossos de dinossauro, começa a emergir. A estrutura familiar, como o solo onde a família pisa, começa a degringolar. Excelentemente viabilizada, a proposta faz a produção atingir níveis altíssimos de qualidade estética, sendo esse um de seus maiores méritos. Não menos importantes, a trilha sonora e a iluminação, de Nervoso e de Antônio Guedes respectivamente, são pontuais, certeiras, adequadas e auxiliam positivamente na construção dos melhores momentos da representação. Quem assiste tem a certeza de que está vendo uma rara obra de arte e, por isso, de grande valor.
Não muito diferente pode ser a avaliação das interpretações. Relegado a um (estranho) segundo plano, Todd ganha pouco espaço para se expressar, o mesmo espaço que, desde o texto, tem Tommy. Álamo Facó (o Filho) e Felipe Abib (o Noivo), dentro do que lhes foi dado de chances de mostrar o seu trabalho, aproveitam o disponível e garantem uma discreta, mas importante participação. Mariana Lima, sem dúvida, é uma das melhores e maiores participações de Pterodátilos. Beneficiada por Silver, mas também por Hirsch, a atriz aproveita-se da situação cambaleante de sua personagem alcoolizada (Grace, a mãe) e providencia à cena e aos seus pares os momentos mais fortes de toda a narrativa. Com Nanini, Lima brilha radiante, sobretudo, nos momentos iniciais da peça em que a comicidade tem mais espaço para acontecer.
Alvo de muitas críticas, a reação da plateia, que chega a gargalhar em alguns momentos, pode ser negativamente criticada por quem esteve sedento por mais tempo livre para a abstração do texto. Trata-se de um engano, já que é absolutamente necessário que a primeira parte do espetáculo seja contada em meio a muitos risos. Usando uma metáfora, chamo a atenção para o fato de que Silver e Hirsch necessitam que uma “casa” seja construída no início para, a seguir, ser destruída. Em outras palavras, quem ri no início do espetáculo, sofrerá mais facilmente os beliscões no fim dele. Quem gargalha dos personagens antes perceberá depois que, na verdade, gargalhava de si mesmo.
O ponto fundamental e decepcionante desta montagem é a responsabilidade dada a Marco Nanini na produção. Já com cabelos brancos, um senhor usando um vestido de noiva chama a atenção e se destaca até mesmo num incrível cenário de Daniela Thomas, numa adequada luz de Antônio Guedes e com quem quer que esteja ao seu lado bem trabalhando. É impossível dizer que Marco Nanini não é um excelente ator e seria mentiroso apontar algum aspecto negativo de seu trabalho em Pterodátilos. O problema é da produção que, ao permitir que ele interpretasse esses dois personagens, modificasse o ponto de vista tradicional do texto, desequilibrando, assim, a obra, e fazendo com que tudo e todos parecessem servir negativamente para a indução do foco para Nanini. Uma vez que Emma e Arthur são tão bons personagens como a Mãe e o Noivo na dramaturgia, a concepção viabilizada leva a peça a descarrilhar, embora não chegue a despencar porque, mais uma vez, Marco Nanini é, de fato, um grande ator e está ao lado de excelentes profissionais tanto no palco, como na ficha técnica. É preciso que se diga, porém, que a produção perdeu a oportunidade preciosa de figurar entre os melhores espetáculos do 18º Porto Alegre em Cena quando optou por carregar “as tintas” das cenas de Emma e de Arthur e o desenvolvimento de seus conflitos menores, esses quase totalmente cômicos, isto é, próprios apenas da primeira parte de Pterodátilos.
Quando se fala em signos teatrais, na verdade, se fala em signos tornados teatrais. O teatro utiliza, para a sua viabilização, elementos advindos de diversos sistemas culturais que, a priori, não são seus. A importância da escolha dos atores e de sua distribuição nos papeis, considerando o fato de que os atores também são signos tornados teatrais postos a serviço da produção, fica evidente na análise desse espetáculo de Felipe Hirsch. Faz, por isso, pensar e, não tanto quanto se esperava, aplaudir.
* Texto escrito em setembro de 2011 por ocasião do 18º Porto Alegre em Cena.
Neva (Uruguai)
Foto: David Puig
Neva
Falar do socialismo nesse início de século XXI soa tão mofado quanto da Bíblia, uma vez que ambos os textos refletem um mundo que já não existe. Neva, o primeiro texto do chileno Guilhermo Calderón, não teria muito a nos dizer se parássemos nessa concepção. A encenação do texto, porém e felizmente, prova justamente o contrário. Dirigida por Álvaro Corrêa, a produção uruguaia se estrutura a partir da exploração máxima de jogos linguísticos em que atores interpretam atores que interpretam personagens e é difícil saber quando são os personagens e quando são os personagens interpretados pelos personagens que estão falando. Com vivacidade surpreendente, o trio excelente de atores eleva o texto escrito por Calderón, acrescenta ao teatro e completa uma muito boa participação no 18º Porto Alegre em Cena.
Atrás do palco fictício, três atores estão reunidos na Rússia de 1905 (12 anos antes da Revolução Socialista). Olga Knipper (Bettina Mondino), a primeira atriz do Teatro de Moscou, está ensaiando O jardim das cerejeiras, texto escrito por Antón Tchekov, seu marido falecido seis meses antes. Junto dela, os colegas Masha (Paola Venditto) e Aleko (Moré) a auxiliam nesse ensaio, mas também em outros jogos dramáticos que incluem, entre outros, a interpretação de alguns momentos ocorridos às vésperas da morte de Tchekhov, um dos maiores dramaturgos russos. O realismo do cenário, do figurino, da iluminação, mas, sobretudo, no modo como o diálogo acontece, deixa o espectador com o prazer de acessar as informações do texto, rejuvenescidas pelo contexto em que são realizadas. Os três atores exibem excelências na forma como construíram e dão a ver as suas construções: texto dito de forma clara, pausas bem marcadas, expressões limpas.
Ponto alto do espetáculo, o discurso final de Paola Venditto (Masha) tem o poder de nos fazer refletir sobre o lugar do teatro na abandonada discussão sobre classes sociais. Através da personagem, Venditto e, outrora, Calderón, nos convocam, nos estimulam, nos põem a debater. Antecedido por um excepcional número musical, em que Mondino mostra-se também uma ótima cantora, a cena final, além de ratificar a linguagem estabelecida até o momento, imprime a beleza da simplicidade de um teatro bem feito: uma atriz interpretando uma personagem diante de um público. Nada mais, além de aplauso.
* Texto escrito em setembro de 2011 por ocasião do 18º Porto Alegre em Cena.
Neva
Falar do socialismo nesse início de século XXI soa tão mofado quanto da Bíblia, uma vez que ambos os textos refletem um mundo que já não existe. Neva, o primeiro texto do chileno Guilhermo Calderón, não teria muito a nos dizer se parássemos nessa concepção. A encenação do texto, porém e felizmente, prova justamente o contrário. Dirigida por Álvaro Corrêa, a produção uruguaia se estrutura a partir da exploração máxima de jogos linguísticos em que atores interpretam atores que interpretam personagens e é difícil saber quando são os personagens e quando são os personagens interpretados pelos personagens que estão falando. Com vivacidade surpreendente, o trio excelente de atores eleva o texto escrito por Calderón, acrescenta ao teatro e completa uma muito boa participação no 18º Porto Alegre em Cena.
Atrás do palco fictício, três atores estão reunidos na Rússia de 1905 (12 anos antes da Revolução Socialista). Olga Knipper (Bettina Mondino), a primeira atriz do Teatro de Moscou, está ensaiando O jardim das cerejeiras, texto escrito por Antón Tchekov, seu marido falecido seis meses antes. Junto dela, os colegas Masha (Paola Venditto) e Aleko (Moré) a auxiliam nesse ensaio, mas também em outros jogos dramáticos que incluem, entre outros, a interpretação de alguns momentos ocorridos às vésperas da morte de Tchekhov, um dos maiores dramaturgos russos. O realismo do cenário, do figurino, da iluminação, mas, sobretudo, no modo como o diálogo acontece, deixa o espectador com o prazer de acessar as informações do texto, rejuvenescidas pelo contexto em que são realizadas. Os três atores exibem excelências na forma como construíram e dão a ver as suas construções: texto dito de forma clara, pausas bem marcadas, expressões limpas.
Ponto alto do espetáculo, o discurso final de Paola Venditto (Masha) tem o poder de nos fazer refletir sobre o lugar do teatro na abandonada discussão sobre classes sociais. Através da personagem, Venditto e, outrora, Calderón, nos convocam, nos estimulam, nos põem a debater. Antecedido por um excepcional número musical, em que Mondino mostra-se também uma ótima cantora, a cena final, além de ratificar a linguagem estabelecida até o momento, imprime a beleza da simplicidade de um teatro bem feito: uma atriz interpretando uma personagem diante de um público. Nada mais, além de aplauso.
* Texto escrito em setembro de 2011 por ocasião do 18º Porto Alegre em Cena.
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