segunda-feira, 24 de outubro de 2011

In On It (RJ)

Foto: Guilherme Santos / PMPA

O não dito

Embora a discussão sobre forma e conteúdo já tenha sido deixada de lado há um bom grupo de décadas, uma vez que já se entendeu que, na forma, também há conteúdo, partir dela é sempre renovador quando pensamos em arte como um processo que começa e termina e que só se estende na sua recepção. O que levou um determinado grupo de pessoas a fazer essa peça desse jeito? E aí a reflexão fica situada o máximo possível (ou seja, num lugar tão pequeno quanto inexistente) naquilo que não é a relação da obra com o público. In on it parece ser mais uma peça em que um grupo de pessoas pensou, primeiro, na forma e esqueceu do conteúdo, como tantas que se vê por aí.

“Eu sou louco para fazer uma peça em que as histórias se misturem... Uma coisa meio Magnólia com aquela chuva de sapos...”

“E duas cadeiras. Só duas cadeiras. Teatro dos bons: ator e texto!”

Cansativo. Histriônico. Frio como uma geladeira vazia. Inútil como um Iphone que não recebe ligações, nem as faz. Com um texto do canadense Daniel MacIvor, Emilio de Mello e Fernando Eiras, em calças, sapatos, camisa e gravata iniciam a peça dizendo, com todas as letras, que querem fazer algo aparentemente inovador, que comece “de repente”, sem que o teatro pareça teatro, sem que haja um ponto inicial bem marcado. Com uma mala cheias de troféus e a fama de ser o espetáculo mais desejado do 17º Porto Alegre em Cena, a trama dirigida por Enrique Diaz parece mais purpurinada do que realmente boa. Os atores, que são excelentes, se sucedem em personagens quase caricatos e a luz é um espetáculo a parte, sendo o cenário, o figurino, a maquiagem e, em alguns momentos, a protagonista desse show.

Então, as histórias vão ganhando corpo e os minutos passando. De um lado, dois atores ensaiam uma peça. De outro, a peça apresentada. No centro, um par de homossexuais discutem a relação. Os homossexuais parecem ser os atores no passado. Um dos atores parece ser um dos personagens da história da peça, o que estava dirigindo um dos carros no dia do acidente fatal que termina a trama dentro da trama. Há ou não há uma ligação entre as três narrativas?

Eis aí que o texto deixa de ser texto e os atores passam a não mais existir. Tem-se um discurso e quem age é personagem do/no contexto. É o Rodrigo que muda de tom quando escreve no blog do festival ou quando está no Ponto de Encontro. É o filho que fala com a mãe de um jeito e com o pai de outro. Mostra carinho quando quer e é frio quando não está nem aí. (Ou o contrário.) In on it fala das roupagens que a comunicação tem e delas se usa para ser comunicação. A peça se constrói em cima de uma forma totalmente cheia de conteúdo, esse a ser usado o mais plenamente possível. E sua história fala de conteúdos sem forma e, por isso, muitas vezes, não ditos. Se um dos atores for mesmo o personagem da história contada e ambos serem os homossexuais que relembram sua própria história, então, estamos falando de algo que não aconteceu. Tudo não passa de uma reflexão sobre o que não ficou dito. Mas poderia...

Não sabemos do quê sofre o homem que está condenado à morte. Ele não sabia que sua mulher estava tendo um caso com outro. O filho não sabe que o padrasto irá embora e sua mãe não tem o que dizer a ninguém que ela não possa simplesmente seduzir. O filho fala do tempo, do emprego, da esposa, mas não fala com o pai sobre si e sobre ele. Ninguém sabe quanto tempo de vida resta ao protagonista. Ninguém diz.

O par de homossexuais relembra como se conheceu e como foi sua relação. Sem saberem muito um sobre o outro, eles se encontraram para organizarem uma coreografia para uma festa. Desentendidos. Desencontros. “Por que você não me disse isso (que não poderia me receber) há vinte minutos (quando você mesmo me convidou para vir aqui na sua casa)?!” As brigas, o casaco, a troca do ingresso, o xampu. “O que era mesmo para comprar?”

Os dois atores têm ideias diferentes quanto ao texto. Um deles é o autor, mas embora a opinião desse seja mais fortemente defendida, nem sempre a do outro é desprestigiada. Nós vemos as duas.

Nós vemos as três. Todas as histórias, em paralelo, são contadas sem a entrada ou a saída de nenhum cenário que não seja a mudança de lugar das cadeiras, a quebra na luz e uma nova corporalidade na dupla de atores: Mello e Eiras. Todas as histórias viram uma só, envolvidas, in on it. E o conteúdo mostra pela forma ser o quão próximos e distantes estamos, tanto que, às vezes, o não-dito se perdoa. Às vezes, não.

De uma forma muito inteligente, o tema banal, mas não vulgar, das relações humanas e do quanto se perde de tempo em não dizer o quanto certas coisas e pessoas são importantes é tratado como conteúdo em In on it. A equipe que criou o projeto trata com a profundidade que o teatro contemporâneo oferece uma questão que só é superficial por ser, muitas vezes, mal discutida. Sempre é tempo de nos unirmos para nos perguntarmos sobre as coisas que não dissemos, sobre o que faltou dizer, sobre o que não adianta mais pensar. MacIvor, ao escrever o texto com a literatura, sugeriu. Mas o mérito é de Diaz e seu grupo pela encenação e do POA EM CENA pelo teatro, pelo encontro do público gaúcho com essa proposta tão rica, emocionante, bem feita e bem vinda.

* Texto escrito em setembro de 2010 por ocasião do 17º Porto Alegre em Cena.

Electra (Uruguai)

Foto: Guilherme Santos / PMPA

Electra: a estreia que não ocorreu


Escrita na Grécia Antiga, há quatrocentos anos antes de Cristo, essa versão de Electra, também contada por outros dramaturgos contemporâneos de Sófocles, cuja versão é tema aqui, foi atualizada incontáveis vezes ao longo dos milênios. Assim como as críticas nesse blog, cada um traz um novo olhar sobre as mesmas obras e tenho certeza de que a mesma pessoa, ao reescrever, ainda se complementaria. Quanto mais antigo é o texto, assim, mais disponível estão os outros olhares. O mesmo ocorre com textos populares. Electra, por isso, traz junto a si uma variedade imensa de possibilidades: é antiga e não muito difícil de encontrar versões. Ambas cargas enaltecem o texto, mas pesam, e muito, a responsabilidade de quem opta fazer. E fechar os olhos para o que há de alternativas não é aceito no teatro profissional.

A jovem Electra espera pelo retorno de seu irmão Orestes. A única razão de sua existência é a vingança pela morte do pai. Agamenón fora morto pela própria esposa Clitemnestra e seu amante Egisto, agora Rei. A mãe sabe que será morta pelos filhos. Os filhos sabem que matarão a mãe. Não há como fugir desse destino e tudo o que se vê, ou lê, são as impressões presentes do que acontecerá num futuro bem breve, com gotas de um passado também não muito distante. Grandes cenários não são necessários, tampouco figurinos caros. Embora todo mundo goste de ter seus olhos cheios por um trabalho ímpar, à narrativa pouco isso tem a acrescentar. Tragédia é mesmo um gênero teatral em que o que importa é o texto sendo dito de forma clara, intencional, rica.

Marisa Bentancur traz ao 17º Porto Alegre em Cena Gabriela Iribarren e Virgínia Rodriguez como as irmãs Electra e Crisótemis, uma outra versão da dupla Antígona e Ismênia. Ambas sabem o que fazer e são obedientes ao seu destino, embora o da primeira seja fazer e o da segunda seja não-fazer algo. As cenas em que as irmãs se encontram são o ponto alto da montagem. É quando o espectador ouve a beleza da história, julga o ato através da situação, o que é importantíssimo para o público de tragédia. Quando quem vê analisa o visto a partir de si, os julgamentos poluem e já não estamos mais assistindo um clássico. Isso, infelizmente, acontece em todos os outros momentos dessa encenação.

Ainda que interessantes, os movimentos coreografados feitos pelo coro, várias vezes, chamam a atenção além do necessário. Colorem a cena e favorecem a encenação introduzindo a ação, mas, quando em excesso, causam constrangimento no espectador que quer prestar unicamente a atenção no que está sendo dito. O mesmo se pode dizer sobre a trilha sonora, que atrapalha e cansa.

Electra, como espetáculo, tem seus piores momentos a partir da entrada de Orestes (Lucas Barreiro). A carga dramática dos atores (também Gustavo Bianchi e Gustavo Suarez) não é expressa no mesmo tom de suas colegas, o que realça a importância delas não só para o texto como também para o elenco, o que é negativo. A opção por apresentar a morte de Clitemnestra em palco aberto é constrangedoramente absurda: quase amadorismo, a opção não se justifica diante da ausência de punhal e de sangue cenográficos. O mito trágico não é realista em nenhum de seus aspectos e a representação da morte não fica nem no realismo, nem no clássico, mas no pateticamente falso.

Encerrando com os aspetos positivos, retomo a beleza do dizer o texto. Pausadamente, quase sem gestos, as atrizes fazem com que a barreira do idioma não se veja. Nem do idioma, nem do tempo. Apesar do apontado como negativo, o espetáculo, que estreia em país estrangeiro, promete agradar seus conterrâneos trazendo ao currículo de Bentancur tanto sucesso quanto o alcançado no seu As troianas, produzido há três anos. Vale a pesquisa sobre o feito tanto para quem faz como para quem vê.

* Texto escrito em setembro de 2010 por ocasião do 17º Porto Alegre em Cena.

Navalha na carne (SP)

Foto: Mariano Czarnobai / PMPA

Ecossistema

Embora saibamos todos que tudo pode ser transformado em objeto artístico e que a expressão não tem limites, nem quanto a forma, nem quanto a conteúdo, não é difícil acordar que há um jeito de fazer determinadas coisas que contribuem mais para o projeto do que outro. Assim, Plínio Marcos tem muitas formas de ser montado, mas garanto que há uma em que os sentidos investidos pelo autor ganham plenitude suficiente para se estabelecer nas suas relações. Tratamos aqui do Realismo Naturalista.

Os personagens são vistos como conseqüência do meio em que vivem. O meio é o protagonista, aquele que é responsável por todos os acontecimentos, a única causa e o único fim. Não há heróis, nem bandidos, nem mocinhas e nem vilões. Tudo e todos são considerados a partir do lugar onde estão, ou seja, não há nem certo, nem errado, mas o sufocamento, a prisão, a fervura. Plínio Marcos escreve todos os seus textos utilizando esse universo estético, esse ambiente natural, animalesco, selvagem, em que o instinto determina as ações muito mais do que a consciência. O realismo naturalista é o contrário do realismo psicológico: o primeiro olha de dentro pra fora, enquanto o segundo vê de fora para dentro.

Dirigida por Pedro Granato, a montagem de Navalha na carne que participa do 17º Porto Alegre em Cena acerta o alvo quando coloca o público próximo e ao redor do espaço cênico. Não há para onde fugir: o espectador é obrigado a olhar e a ouvir o que está acontecendo sem a possibilidade de sair antes. É tudo muito “na cara” e desviar o olhar é um gesto que causa constrangimento, nesse ambiente do qual quem vê também participa. Em frente, está a carne aberta, sangrenta, dilacerada. A alma humana está ao ponto de não ser humana. ”Somos gente?”- pergunta, aliás, Plínio Marcos através de Neusa Sueli. O sexo, a higiene e a alimentação são feitas sem cuidados racionais. A racionalidade ficou do lado de fora: dentro, há o instinto, as coisas feitas sem pensar.

Neusa Sueli é uma prostituta que entrega todo o seu dinheiro para Vado, seu macho. Veludo é um homossexual que rouba o dinheiro para dar a um outro menino, seu macho. Vado rouba, bate, come e dorme sem pensar no amanhã, como também não o fazem os outros dois.

Plínio Marcos não é imoral, ele é amoral.A mesma Neusa Sueli que beija Vado, minutos depois, irá bater nele. A inconstância é o parâmetro, porque todas as ações são tomadas sem reflexão. E são excelentes os três atores nessas construções. Gero Camilo anda de patins e mistura inglês com espanhol sem muito saber quando e o porquê. O som das palavras lhe chama a atenção e ele as repete. Gustavo Machado e Paula Cohen são fortes e não ficam abaixo da agilidade de Camilo. No entanto, neles se encontra um aspecto em que a direção deixa a desejar.

Por vezes, o espectador sente pena de Neusa Sueli diante das ações de Vado. Há uma forte tendência do espetáculo em situar ela como protagonista, correndo o risco de se tornar um melodrama. É difícil de reconhecer a maldade de Neusa quando ela acusa Veludo de roubo. Ou a sensibilidade de Vado quando ele oferece a Veludo algumas tragadas no cigarro. Já em Veludo, que não é coadjuvante, é possível ver o equilíbrio entre as ações: vê-se o roubo de um lado e, de outro, a desculpa dele. Afinal, sem dinheiro, ele jamais teria tido uma noite de prazer com seu homem. Nesse personagem, acertadamente, o bem e o mal se neutralizam.

No realismo naturalista, o contexto situacional é visto como um ecossistema em que os organismos agem pela sua sobrevivência. EmNavalha na carne, um come o outro, porque assim é a lei. Dessa forma, já era nos anos sessenta quando foi lançado. Assim continua sendo. Cabe aos leitores desse texto tão magnífico e aos expectadores desse ótimo espetáculo gerenciarem os diversos níveis e fruírem a experiência em suas próprias vidas.

* Texto escrito em setembro de 2010 por ocasião do 17º Porto Alegre em Cena.